Sobre a diferença entre a morte e o suicídio

Páginas: 47 (11719 palavras) Publicado: 13 de junho de 2014
Sobre a diferença entre morte e suicídio em Schopenhauer
Franciele Bete Petry1

À

primeira vista, é perturbador pensar que, na filosofia de Schopenhauer, mesmo aquele que percebe ser a essência da vida o

sofrimento, não deveria ser levado a cometer o suicídio. Se, em vida, todos os horrores possíveis ao homem ameaçam continuamente sua
existência, por que não deveria ele, por sua própriaação, dar fim aos tormentos que não lhe permitem viver felizmente? Se a angústia o
penetra em seu mais íntimo ser, se a dor o impede da possibilidade de qualquer gozo, desfrute ou prazer, se o suicídio parece levar a cabo
essa penosa submissão a um mundo que nada lhe dá em troca daquilo que dele é tomado a cada instante, por que não o buscar? A franqueza
com que Schopenhauer responde nosestremece:

No fundo e em resumo, o que existe no monólogo universalmente célebre de Hamlet? Isto: o nosso estado é tão infeliz que
um absoluto não-ser seria muito preferível. Se o suicídio nos assegurasse o nada, se na verdade nos fosse proposta a
alternativa de “ser ou não ser”, então sim, seria preciso escolher o não ser, e isso seria um desenlace digno de todos os
nossos desejos [...]. Só queem nós qualquer coisa nos diz que não é bem assim: que o suicídio não desenlaça nada, que a
morte não é um aniquilamento absoluto (Schopenhauer, 2003, p. 340, § 59).

Assim se vê que, sendo a morte algo desejável e digno diante da cruel existência que acompanha todo e qualquer indivíduo, o meio de fazê-la
efetiva não é o suicídio. Este, claramente, põe fim à vida, mas não acaba com a essênciadela, qual seja, a vontade. Esta, ao invés de ser
negada, é fortemente afirmada, fazendo do ato daquele homem infeliz um esforço completamente inútil para o fim que tanto almejava, que
era a eliminação total dos sofrimentos que pensava provir do mundo externo a ele. Porém, uma vez que a dor não se finda com o suicídio,
pelo menos não a dor que é expressão da essência da vida, em nada elecolabora para a diminuição do sofrimento, nem do indivíduo, menos
ainda do mundo. A morte (da maneira como é concebida por Schopenhauer, aquela que é conseqüência da negação da vontade), sim, ela é o
fim não só do indivíduo, mas de todo o querer que nele está presente e é somente ao relutar diante da dominação daquela vontade que o
homem dela pode se libertar.

O presente artigo tem como objetivoapresentar tal temática mostrando em que medida ambos os conceitos, de morte e suicídio, são tratados
no contexto da ética schopenhaueriana. Na primeira parte, trataremos do sofrimento, o qual é inerente à vida, desde que ela é manifestação de
uma vontade que a todo instante quer se realizar e que, contudo, nem sempre consegue se efetivar do modo pretendido. Posteriormente,
mostraremos como aarte e a ética podem servir ao propósito de negação da vontade, ainda que não de forma completa. Na seção final do
artigo, pretendemos expor, então, a razão de ser o suicídio uma afirmação da vontade, enquanto a morte, ao contrário dele, pode ser vista
como a total aniquilação do querer.
O sofrimento como essência da vida

A ética schopenhaueriana repousa sobre a constatação de que a vontade,sendo a essência da vida e, portanto, um constante querer viver, faz
de qualquer existência um completo sofrimento. O sujeito, tanto quanto o mundo em que ele vive e também todas as coisas que nele se
encontram, são todos manifestações de uma e mesma vontade. O mundo pode aparecer a ele como representação, na medida em que se
apresenta a um sujeito que é capaz de conhecer sem ser conhecido,sendo, nesse sentido, um objeto para ele. Se essa relação é de
dependência, então, o mundo só existe se também houver um sujeito que o perceba, já que ele é uma representação para esse último. Se o
homem desaparece, também o mundo deixa de existir. O sujeito, portanto, é a condição do fenômeno, do objeto, pois como diz

Schopenhauer, “tudo o que existe, existe para o pensamento, isto é, o...
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