Sexo, hierarquias, performatividade e gênero: a abordagem de pesquisas contemporâneas

Páginas: 8 (1878 palavras) Publicado: 27 de outubro de 2014
Para pensar os conflitos contemporâneos relacionados aos valores sexuais, não há como descartar o peso simbólico que o tema adquire. Como outros aspectos do comportamento humano, as formas de sexualidade são produtos da atividade humana, permeadas por conflitos de interesse.
É por isso que uma teoria do sexo precisa se dotar de instrumentos conceituais adequados para colocar este assunto empauta. É preciso uma linguagem crítica que dê conta de explicar, descrever, denunciar a opressão e perseguição sexual.
Vários pensamentos sobre sexo deixam de questionar ideias intrínsecas ao pensamento ocidental sobre a questão. Um dos erros é entender o sexo como uma força natural, anterior às relações sociais. O próprio feminismo também comete muitas falhas, principalmente ao considerar aexpressão da sexualidade em dois sexos diferentes, mulher e homem. As categorias de identidade apoiadas no sexo verdadeiro, no gênero distinto e na sexualidade específica não servem como ponto de partida.
O feminismo não é o único nem o mais apropriado caminho para tratar as questões relativas ao sexo. Como as opressões sexuais não podem ser atribuídas apenas à questão do gênero, o conceito de “minoriassexuais” torna-se mais adequado para tratar a questão. Além disso, é preciso livrar-se da ideia de que os seres humanos são antes seres biológicos do que construtos sociais. Os termos sexuais devem ficar limitados aos contextos histórico-culturais, é preciso fugir de generalizações.
É nesse contexto que pretendo destacar as pesquisas recentes de Maria Filomena Gregori e Don Kulick na área dasexualidade. Em Prazer e Perigo: notas sobre feminismo, sex-shops e S/M, Gregori traz as conclusões de sua pesquisa de campo realizada nos Estados Unidos, mais especificamente nos sex-shops de Barkeley e San Francisco. A autora aborda a existência de um campo alternativo no mercado para o sexo, questionando o modo convencional e apresentando um “erotismo politicamente correto”. Já Kulick veio da Suéciapara pesquisar as travestis em Salvador, com as quais conviveu por doze meses, oito deles morando na mesma casa. O autor traz o argumento de que a ideia de “inversão” não é apropriada para pensar travestis: a partir da perspectiva das próprias, pretende então investigar como elas esclarecem e extraem conclusões lógicas deste do conjunto de representações e práticas do masculino e feminino.
Apesquisa de Maria Filomena Gregori nos sex shops de São Francisco e Berkeley mostra como a pornografia pode ter o sentido de transgressão deslocado para um significado mais associado ao cuidado do corpo e fortalecimento do eu, assim como uma domesticação dos traços violentos envolvidos em práticas sadomasoquistas. Práticas condenadas nas relações heterossexuais ganham visilibilidade, aceitação eacessórios nos sex-shops para gays (nas redondezas da Castro Street) e no Good Vibrations (criado pelas lésbicas em 1975).
Gregori critica o modelo de discussão que tem como pressuposto a noção de que a pornografia implica em contestação dos modos habituais de sexualidade, modelo no qual a diferença sexual está baseada na complementariedade entre um corpo que deseja e um corpo constituído comoobjeto do desejo.
Os sex-shops pesquisados, em especial o Good Vibrations, representam casos excepcionais em relação às lojas existentes no mercado. Há todo um esforço de diferenciação que busca abranger outras escolhas sexuais – mais do que visar ao lucro, pretende-se não alimentar esteriótipos e legitimar escolhas mais diversificadas de atividade sexual. Pôsteres espalhados pela Good Vibrations,longe de objetificar o feminino, mostram mulheres comuns; há uma grande quantidade de manuais que buscam ensinar técnicas de exercício sexual, com ilustrações e um texto que se preocupa em tornar legítima a prática em questão; peças vistosas, como dildos e vibradores, perdem o caráter de violação; o sadomasoquismo é apresentado como um jogo erótico de poder e não um abuso físico ou emocional....
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