Sócrates

Páginas: 7 (1603 palavras) Publicado: 29 de setembro de 2012
A democracia ateniense assegurava aos cidadãos o exercício da função
legislativa: integrantes da Ekklesia (assembléia popular), podiam e deviam
participar da elaboração das leis que regiam a vida e os destinos da cidade.
Mas o regime democrático impunha também aos cidadãos a obrigação de
defender, como juízes, as leis que eles mesmos votavam, pois, na condição
de membros das cortespopulares, assumiam o compromisso — através do
juramento heliástico — de fazer acatar aquelas leis e de decidir, de acordo
com elas, o que seria justo e o que seria injusto, o que seria bom ou mau para
a cidade-Estado e seu povo.No ano 399 a.C, o tribunal dos heliastas, constituído por cidadãos
provenientes das dez tribos que compunham a população de Atenas e escolhidos por meio da tiragemde sorte, reuniu-se com 500 ou 501 membros.
Difícil tarefa aguardava esses juízes: julgar Sócrates, conhecida mas
controvertida figura. Cidadão admirado e enaltecido por alguns —
particularmente pelos jovens —, era, entretanto, criticado e combatido por
outros, que nele viam uma ameaça para as tradições da polis e um elemento
pernicioso à juventude. Indiscutível era seu destemor, de quejá dera provas
em tempos de guerra, como notória sua independência pessoal, manifestada
não apenas em seu modo peculiar e inconvencional de viver, mas também em
circunstâncias especiais — como quando se negou à conivência com sórdida
trama política urdida pelos Trinta Tiranos que durante algum tempo haviam
dominado Atenas. Mas o que sobretudo o caracterizava era a atividade a que
vinhase dedicando há anos e que justamente suscitava o deleite e a
admiração dos jovens, enquanto noutros despertava ressentimentos:
conversar. Despreocupado com os bens materiais — cujo acúmulo era o
objetivo da maioria —, usufruindo os prazeres sem se atormentar em viver à
sua cata, mas também sem deles fugir em exageros ascetas, Sócrates
dedicava-se ao que considerava, desde certo momentode sua vida, sua
missão — a missão que lhe teria sido confiada pelo deus de Delfos e que o
tornara um "vagabundo loquaz": dialogar com as pessoas. Mas dialogar de
modo a fazê-las tentar justificar os conhecimentos, as virtudes ou as
habilidades que lhes eram atribuídos. Com esse objetivo inicial, levava o
interlocutor a emitir opiniões referentes à sua própria especialidade, para emseguida interrogar a respeito do sentido das palavras empregadas. O
resultado das questões habilmente formuladas por Sócrates — que alegava
que "apenas sabia que nada sabia" — era, com freqüência, tornar patente a
fragilidade das opiniões de seus interlocutores, a inconsistência de seus
argumentos, a obscuridade de seus conceitos. Colocados à prova, muitos
supostos talentos e muitasreputações de sapiência revelavam-se infundados
e muitas idéias vigentes e consagradas pela tradição manifestavam seu
caráter preconceituoso e sua condição de meros hábitos mentais ou simples
construções verbais sem base racional. Evidenciava-se a ignorância da própria ignorância: situação que, não sendo ultrapassada, prenderia a alma
num estéril engano e, o que era mais trágico ainda,deixá-la-ia distante de si
mesma, apartada de sua própria realidade. Para alguns — os que aceitavam
submeter-se à fase construtiva da dialogação socrática —, aquele
reconhecimento da ignorância do justo significado das palavras representava
a oportunidade de um verdadeiro renascimento: o renascer na consciência de
si mesmo, condição preliminar para a tomada de posse da própria alma. Para
outros,porém, era o esboroar do prestígio em plena praça pública. Ou então
era a instauração de questões e dúvidas ali onde há séculos perdurava a
cega certeza dos preconceitos e das crendices: no campo dos valores morais
e religiosos, que orientavam a conduta dos indivíduos mas também serviam
de alicerces às instituições políticas.
O julgamento
Diante do tribunal popular, Sócrates é...
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