Romance moderno

Páginas: 24 (5797 palavras) Publicado: 15 de maio de 2014
O caráter pedagógico-moral do romance moderno
Valéria Augusti*
RESUMO: O romance moderno surge no século XVIII e, com ele, uma
polêmica em torno dos efeitos que sua leitura poderia provocar.
Desacostumados com a representação literária de situações e
personagens comuns, os leitores acreditavam na veracidade de tais
narrativas. Tal crença, que possibilitava uma fácil identificação dosleitores
com os personagens, causava ao mesmo tempo temor e admiração. Os
moralistas condenavam o gênero, pois acreditavam que ele apresentava
modelos de conduta viciosos, capazes de desestruturar a ordem vigente.
Entretanto, alguns leitores ilustres afirmavam que apenas o romance
seria capaz de fazer com que o leitor aceitasse os sacrifícios que a
leitura requeria. Havia, portanto, um consensosobre a capacidade de o
romance servir de modelo de conduta. Essa concepção, ainda no século
XIX, quando surgiram as primeiras manifestações nacionais do gênero,
está presente no discurso da crítica literária brasileira.

Palavras-chave: Romance moderno, literatura prescritiva, guia de conduta,
Brasil, Joaquim Manoel de Macedo

Romance e literatura prescritiva: Um campo de disputa
Desdepelo menos o século XVIII, quando surgem o romance moderno
e hordas de admiradores do gênero, instaura-se uma polêmica em torno dos
efeitos que sua leitura poderia provocar. Envolvidos em tal polêmica estavam
Diderot, o ilustre filósofo iluminista, e Madame de Staël, romancista e intelectual
empenhada em propagar pela Europa o romantismo alemão.

*

Doutoranda em Teoria Literária peloInstituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual
de Campinas. E-mail: vaugusti@bol.com.br

Cadernos Cedes, ano XX, no 51, novembro/2000

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Diderot havia lido Richardson e jurava que, mesmo empobrecido e
obrigado a desfazer-se de sua biblioteca, jamais abriria mão dos exemplares
do romancista inglês que tanto admirava.
Hoje parece-nos um tanto absurdo imaginar que Diderot seriacapaz
de vender uma biblioteca filosófica e manter consigo a todo custo a obra de um
dos fundadores do romance moderno. Afinal, o que poderia haver de tão
especial na produção literária desse autor a ponto de provocar uma comoção
de tal ordem em Diderot? A resposta a essa pergunta talvez não diga respeito
a Richardson em particular, mas sim ao gênero literário a que este, assim
como Defoe eFielding, se dedicara.
Retratar cenários familiares ao leitor, apresentar personagens que
poderiam existir na vida real, descrever suas experiências diárias, conflitos e
pensamentos em uma estrutura narrativa cronológica de caráter biográfico
talvez tenham sido alguns dos procedimentos narrativos responsáveis pelo
fato de o romance ser, já no final do século XVIII, um sucesso entre os leitores.As semelhanças entre o universo da ficção e a realidade fizeram com
que os leitores, não raro, tivessem dúvidas sobre o caráter ficcional dessas
narrativas. A bem da verdade, talvez se possa dizer que havia uma certa
expectativa de que as histórias e os personagens que as viviam fossem reais.
É o que demonstra, por exemplo, o estudo de Darnton sobre um leitor
1
rousseauísta do Antigo Regime.O historiador assinala que os contemporâneos de Rousseau queriam acreditar que as cartas do romance epistolar A
Nova Heloísa eram verdadeiras:

Esse pode parecer um falso problema para o leitor moderno, mas ele era
capital para os contemporâneos de Rousseau. Muitos leitores da Nova
Heloísa acreditavam e queriam crer na autenticidade das cartas. Mesmo
o interlocutor sofisticado do segundoprefácio, o “prefácio dialogado”,
confessa-se “atormentado” pela necessidade de saber se Júlia existiu
realmente, e ele faz toda a discussão do romance girar em torno da
2
interrogação: “Essa correspondência é real, ou é uma ficção?”

Essa expectativa em torno da realidade das ficções serviu também ao
interesse e às conveniências de escritores cujo excesso de compromissos
obrigava a...
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