Riqueza sensorial na invenção autobiográfica

Páginas: 10 (2404 palavras) Publicado: 9 de outubro de 2011
 Riqueza sensorial na invenção autobiográfica

Sandra de Almada Mota Arantes (Mestre em Letras, UNINCOR)

Resumo:
O presente trabalho objetiva levantar questões sobre a formação na construção de um texto memorialístico, estabelecendo a relação entre o vivido e a sensorialidade na representação. No discurso da memória em De amor e trevas, de Amós Oz, manifestam-se sensações que sesolidificam numa consciência do narrador. A memória reconstrói o passado através das emoções de um presente da elaboração. Imagens são reconstruídas e exploradas pelo eu com a certeza das conexões entre a memória e os sentidos. Os sentidos afloram nas emoções de narrar. Nessa escrita a memória é reversível.
Palavras-chave: sensorialidade, memória, invenção autobiográfica. 

      Um leitor desavisadodificilmente perceberá que aquele que narra uma história não é o autor da mesma. Aquele que cria uma narrativa e, é também seu sujeito, organiza a escrita memorialística e nela insere um eu falando da intimidade. Esse eu não é o que produz a narrativa. Eis um escopo da organização do livro memorialista De amor e trevas, de Oz.
      Há, na verdade, uma relação entre o que escreve o autor e o quenarra no momento presente. O autor estabelece relações com o sujeito da narrativa uma vez que fala dele mesmo, propondo ao mesmo tempo um afastamento entre os dois, uma distância dada pelo tempo, estabelecida entre a época em que as coisas aconteceram e a época em que foram relatadas. O personagem dessa história é o tal sujeito para quem, por meio das manifestações sensoriais vividas e presentesna narrativa, é dada a possibilidade de se estabelecer uma construção.
      O cenário explorado é o local onde vive esse sujeito em processo de formação, ou se imagina que vive. Nesse estudo, um menino revive narrativas do autor. Narrativas com cheiros, com sabores de infância, de adolescência, de vida. A recriação do cenário é feita em função do que se pode lembrar, mas não é possívellembrar-se do que foi na mesma dimensão do que ainda vem.
Não pode lembrar-se de ontem, na mesma medida em que não se pode lembrar de amanhã. Pode apenas contemplar o dia de ontem, pendurado para secar juntamente com o feriado estival de maior índice de precipitação pluviométrica de que se tem registro, pouco adiante no varal. Porque sua memória é um varal e as imagens de seu passadosão roupa suja redimida, criados infalivelmente complacentes de suas necessidades de reminiscência (BECKETT, 2003, p. 29-30).
     Beckett (2003) escreve sobre lembranças, afirmando a existência de dois tipos de memória, “a memória voluntária e a memória involuntária”. A primeira é como um álbum de fotografias, com cenas do passado, como se fosse a memória de um sonho, ela “não tem valor comoinstrumento de evocação e mostra uma imagem tão distante do real quanto o mito da nossa imaginação” (p.12-13).Ela pode ser acionada. Pode-se escolher quais imagens se quer arquivar para torná-las disponíveis. Já a segunda é “explosiva, uma deflagração total, imediata e deliciosa” (p.33), dona de si, determina onde e quando vai-se manifestar. Ambas aparecem em De amor e trevas e no intercalar dapresença e ausência de uma e outra. A experiência vivida torna-se comum ao passado e ao presente. A certeza de que existem fortes conexões entre a memória e os sentidos está expressa nas sinestesias da escrita, provocando sensações em quem escreve e também em quem lê.
     A memória involuntária proustiana, em Beckett (2003), que “escolhe seu próprio tempo e lugar para a operação do milagre” (p.33),explode, restaurando o que passou, permitindo a agregação do vivido ao “sujeitando” da história presente. Paralela a essa, trabalha a outra, despertada à vontade de quem deseja lembrar.
     O menino de Amós Oz é esse sujeito aqui tratado, que “sente” as manifestações sensoriais fornecidas pelo passado as quais caminham pelas entranhas de um corpo que incorpora lembranças. Estas, incorporadas,...
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