Relação subjetividade-sociedade

Páginas: 11 (2691 palavras) Publicado: 27 de agosto de 2014
Um dos grandes debates da nossa atualidade gira em torno da relação entre as esferas da subjetividade e da sociedade. Como veremos mais à frente, essa relação toma diversos contornos, gerando desejos, imposições, patologias, dissimetrias, negação da herança simbólica, idealizações inalcançáveis, crença na independência, valorização extrema do individualismo. Este último, por sinal, é um dospilares da vida na sociedade moderna – pós ou hiper-moderna, como definem alguns autores – que se choca diretamente com o discurso de liberdade. Por isso, antes de avançarmos na discussão, vale a pena passarmos por uma breve contextualização de como esse valor chegou para se estabelecer como um elemento estrutural da sociedade contemporânea.

Segundo Boaventura de Sousa Santos (2008), foi durante oséculo XIX, período do capitalismo neoliberal, que explodiram as contradições do projeto da modernidade, como a solidariedade e a identidade, entre justiça e autonomia, entre igualdade e liberdade.

De acordo com essa concepção, incluindo aqui as análises sociológicas do individualismo narcisista, o mal-estar contemporâneo seria fruto da queda das utopias do século passado. A sociedade moderna doséculo XIX havia se estabelecido sobre a base dos ideais da revolução francesa de igualdade e democracia, mas ao assistir à quebra de suas principais promessas e, consequentemente, confiança em diversas de suas instituições, como família, governo, religião – instâncias que homogeneizavam crenças, sentimentos e que equalizavam a sociedade ao regular e equilibrar desejos e paixões, causando, deacordo com Durkheim, diversos problemas sociais (como o suicídio) – os indivíduos do século XIX foram expostos a um forte clima de incertezas e falta de segurança. Nesse contexto de crise, a sociedade fica sem capacidade de exercer seus freios morais, de uma consciência superior à dos indivíduos. Estes deixam de ser solidários e a coesão social fica ameaçada. Por causa dessa crise, a “consciênciacoletiva” abriu espaço para a “consciência individual”, em que os indivíduos voltam-se para si e fazem declinar a consciência comum.

Neste caso, o indivíduo acredita agir individualmente, mas ele acaba respondendo a fatores externos já que a vida social lhe impõe um modo de agir, o fato social, que é algo exterior a ele, coercitivo e geral (Durkheim, 2007). Aqui a ideia central é a de que existeuma lógica na ação das pessoas uma vez que os seres não são indeterminados, mas regidos por forças sociais – assim como nos diz Lacan, que o inconsciente é social e o outro está dentro do próprio sujeito; ou como fala Calligaris sobre o processo civilizatório consistir em uma progressiva internalização do controle. Este controle, por sua vez, e aqui aparece um sinal do mal estar, só é mantido pelavontade do indivíduo. Um exemplo disso é o esforço da educação em formar um ser social ao impor certas maneiras de viver, sentir e agir. Como nos diz Durkheim para ilustrar isso, “se, com o tempo, esta coerção deixa de ser sentida, é porque pouco a pouco dá lugar a hábitos, a tendências que a tornam inúteis” ou então teremos um sujeito em conflito com essa educação e, talvez, se sentindo impotenteem relação a ela por não atingir seu ideal.

Outro ponto que merece espaço nessa discussão sobre as esferas da subjetividade e sociedade é quanto à nossa constituição. Hegel nos traz a visão de que somos constituídos a partir da negatividade. Assim como Lacan diz que somos formados – e nos formamos – por meio das nossas frustrações em relação ao objeto desejado e não pelo sucesso na aquisiçãodele.

Nossa existência na sociedade é uma relação desejada, necessária e conflituosa. Segundo Hannah Arendt, um dos motivos do desejo e necessidade da vida em sociedade é que ela reconhece nossa existência, uma vez que as relações dão sentido à existência – ainda que a existência seja marcada pelo pensamento (subjetividade), ou seja, pela conversa do sujeito com ele mesmo. Podemos interpretar...
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