Regis Debray - Vida e Morte da imagem , Uma Historia do olhar no Ocidente

Páginas: 5 (1022 palavras) Publicado: 9 de abril de 2014
Regis Debray - Vida e Morte da imagem , Uma Historia do olhar no Ocidente

A fonte não é a essência, e o devir é importante. Mas qualquer
coisa obscura esclarece-se através de seus arcaísmos. Do substantivo
arché que significa, ao mesmo tempo, razão de ser e começo.
Quem recua no tempo, avança no conhecimento.

É uma banalidade verificar que a arte nasce funerária, e renasce
apenasmorre, sob o aguilhão da morte. As honras fúnebres
relançam, consoante o lugar, a imaginação plástica, as sepulturas
dos grandes foram nossos primeiros museus e os próprios
defuntos nossos primeiros colecionadores. Com efeito, esses
tesouros de armas e de baixela, vasos, diademas, caixinhas em
ouro, bustos de mármore, móveis de madeira preciosa, não se
destinavam a serem vistos pelos vivos. Nãoeram amontoados no
fundo das construções sepulcrais, pirâmides ou valas para embelezar,
mas sim para prestar serviço.

Do mesmo modo que as sepulturas foram
os museus das civilizações sem museus, assim também nossos
museus são, talvez, os túmulos característicos das civilizações
que já não sabem edificar túmulos. Será que já não têm o fasto
arquitetural, o prestígio, a proteção vigilante, oisolamento ritual
no espaço cívico? Mas no Egito, em Micenas ou Corinto, as
imagens postas a salvo deveriam ajudar os defuntos a prosseguirem
suas atividades normais, ao passo que nós devemos interromper
as nossas para visitar nossos mausoléus. Interrupção
tardia da preocupação bem prática de sobreviver que viemos a
batizar com o nome de Estética.

U_ma religião fundada sobre 0 culto dosantepassados exigia que eles sobrevivessem pela..
im~m.

Em
primeiro lugar, fantasma; em seguida, figura. S~rá que s_e preten·
de ver aí um lúgubre assombramento da v1da lummosa da
Hélade? Voltemo-nos, entào, para os gregos, essa cultura do sol
apaixonada pela vida e pela visão a ponto de conf~ndi-las: para
um antigo grego, viver não é r~~ar, em o para no~ mas ver; e
morrer é perder avista. Nós dizemos "seu último suspiro"

[c!Q]g vem de eídolon \ -·
que significa fantasma dos mortos, espectro e, somente em
seguida, imagem, retrato. O eídolon arcaico designa a alma do
morto que sai do cadáver sob a forma de uma sombra imperceptível,
seu duplo, cuja natureza tênue, mas ainda corporal, facilita
a figuração plástica.


Em língua litúrgica, "representação" designa "umcaixão vazio
sobre o qual se estende uma mortalha para uma cerimônia
fúnebre". E Littré acrescenta: "Na Idade Média, figura moldada
e pintada que, nas obséquias, representava o defunto." Trata-se
aí de uma das primeiríssimas acepções do termo. E eis que essa
arte de utilizar os mortos, em conformidade com nossos interesses,
leva-nos a entrar na política.





Os ritos fúnebres dos reis daFrança, entre a morte de Carlos VI e a de Henrique IV, ilustram
tanto as virtudes simbólicas quanto as vantagens práticas da
3. Eurípides, Alces/e, verso 348.
4. François Lis5arague, Un flot d'images, une esthétique du banquei grec,
Paris, Adam Biro, 1987. Ver igualmente de F. Lis5arague e A. Schnapp, "lmagerie
des Grecs ou Grece des imagiers", in Le Temps de la réflexion, 2, 1981.
24
imagemprimitiva como substituto vivo do morto. O corpo do rei
devia permanecer exposto durante quarenta dias5
• Mas a putrefação,
apesar da evisceração imediata e dos processos de embalsamamento,
avança mais depressa do que a duração
materialmente exigida para a exposição, transporte dos restos
mortais para a Basflica de Saint-Denis (sobretudo para os falecidos
em terras longínquas) eorganização oficial das obsé,quias.
Daí, a utilidade de uma efígie exata, verista, do soberano desaparecido
(Clouet fabricou pessoalmente o manequim de François
1~). Vestida com todos os seus adornos e dotada com as ins.ígnias
do poder, é ela que vai presidir, durante quarenta di.as, as
refeições e as cerimônias da Corte. Unicamente ela recebe as
homenagens; enquanto a efígie estiver exposta, o...
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