Reflexões sobre a vida e os direitos de anne cefaline

Páginas: 8 (1776 palavras) Publicado: 10 de agosto de 2012
Reflexões sobre a vida e os direitos de Anne Cefaline
(Davison Rego Menezes)

Quando soprou as rajadas de seu pensamento sobre as artes e a filosofia, Victor Hugo arejou o espírito humano, afastou parte do nublado da ignorância e permitiu-nos enxergar a vida “com um olhar mais elevado e mais amplo”, compreendendo que “tudo na criação não é humanamente belo, que o feio existe ao lado do belo, odisforme perto do gracioso, o grotesco no reverso do sublime, o mal com o bem, a sombra com a luz”[1]. Hugo assegurava: o que chamamos de feio “é um pormenor de um grande conjunto que nos escapa, e que se harmoniza, não com o homem, mas com toda a criação”[2].

De fato, Anne Cefaline não é bela; personifica “os párias [que] não têm nomes, usam apenas uma designação a que se acostumaram aresponder”[3]. Demos um nome a esta “legião de párias” pretendendo lhe tributar maior dignidade e resgatá-la à família humana, a que pertence, invariavelmente — após tanto ser aviltada nos debates públicos que fizeram rolar seu futuro de uma direção a outra[4].

Para melhor conhecermos Anne Cefaline, é preciso situá-la entre os párias em redenção, aqueles que “sofrem e choram, embrulhados no manto dador e da soledade, expurgando-se, para galgar a montanha da sublimação, após a demorada marcha pelo charco das paixões em superação”[5]; enfrentam “problemas especiais, em que a individualidade renasce de cérebro parcialmente inibido ou padecendo mutilações congênitas, ao lado daqueles que lhe devem abnegação e carinho”[6].

Todavia, à entrada do portal do nascimento, quando vinha dar forma àaliança entre a população terrena e a sociedade espiritual, a viagem de Anne Cefaline fora interrompida, durante a travessia do grande continente da Espiritualidade ao plano material.

Foram os homens trajados de densos corpos que expulsaram Anne Cefaline antes que seus pés tocassem a terra na qual sua estada, conforme já se previa, seria breve. Perceberam, por sofisticados exames pré-natais, quea viajante lhes desagradaria o afã por notícias promissoras, que falassem de saúde, prosperidade e ilusória felicidade; eis porque a repeliram.

O naufrágio causado pela tempestuosa arbitrariedade que se abateu sobre Anne Cefaline antecipara seu retorno ao litoral da erraticidade; e sua sobrevivência devera-se à inexorável tábua da Imortalidade, a que todos estamos agarrados. É bem verdade quepara o náufrago não há uma morte a aniquilá-lo, mas as peripécias que arrebentam sua embarcação, além de lhe alijarem ao mar do desprezo, fustigam-lhe de tal sorte o espírito que seu regresso à verdadeira pátria não pode ser considerado dos mais venturosos.

O banimento é em si mesmo injustificável (vide art. 5º, inciso XLVII, alínea d, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988).E o flagelo que tortura Anne Cefaline advém da sumária pena com que os homens da terra irmã a subjugaram, sem que lhe fossem apresentados fundamentos com o fiel respaldo da razão.

Mesmo os animais nascidos com deformidades congênitas em algum membro locomotor — o que lhes impõe reduzida probabilidade de vingar na rotina do rude trabalho que os espera — têm recebido da ciência, maissensibilizada, a oportunidade de servir em terapias de transtornos diversificados, evitando-se o sacrifício letal.

As flores também fruem da consideração e respeito público; não são arrancadas, mas ainda quando apartadas do solo de que se nutrem, suas pétalas e perfumes são colhidas e extraídos delicadamente para amenizar a dor dos quem pranteiam em algum funeral — que certamente não será o de AnneCefaline, que sequer pode dispor de uma câmara mortuária. Seu túmulo está apenas na consciência dos poucos que dela podem se despedir...

Anne Cefaline está privada destes cuidados. Ela sofre uma nova feição de abandono social, visto que nem mesmo se lhe concedem a condição de natimorto, presenteado com um nome, imagem e sepultura (Enunciado nº 1 da I Jornada de Direito Civil do Conselho da Justiça...
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