Putas, Escravos e Garanhões - BOXE - texto

Páginas: 35 (8528 palavras) Publicado: 9 de setembro de 2014
Mana 6(2):127-146, 2000

PUTAS, ESCRAVOS E GARANHÕES:
LINGUAGENS DE EXPLORAÇÃO
E DE ACOMODAÇÃO ENTRE
BOXEADORES PROFISSIONAIS*
Loïc Wacquant

O boxe oferece um prisma singular por intermédio do qual é possível chegar a uma compreensão das possibilidades estruturadas, percepções culturais e trajetórias individuais no interior dos bairros pobres e decadentes dos Estados Unidos. A suanatureza como atividade em que o corpo é
radicalmente instrumentalizado, as suas ligações com a economia informal das ruas, o recrutamento social e etnorracial de seus praticantes, as
motivações e disposições que requer, fazem do boxe a prototípica instituição masculina do gueto. De fato, a história moderna do pugilismo nos
Estados Unidos é inseparável daquela das relações raciais e também dasperiódicas reconfigurações da fronteira de cor na área urbana desse país
(Sammons 1988). O boxe é também um terreno particularmente propício
para dissecar a experiência vivida e a construção simbólica da exploração na parte mais baixa da estrutura de classe e de casta.
O presente artigo baseia-se em 35 meses de trabalho de campo etnográfico e aprendizagem em uma academia de boxe situada no guetonegro de Chicago, buscando explicar como os lutadores profissionais percebem e expressam o fato brutal de serem mercadorias vivas feitas de carne e sangue, e como eles se reconciliam praticamente com a ferocidade
da exploração de uma maneira que lhes permite preservar um senso de
integridade pessoal e finalidade moral. Desse modo, procura contribuir
simultaneamente para a antropologia das culturasdas classes trabalhadoras e para a etnossociologia do corpo, da economia e da moralidade1.
Uma noção que costuma ser usada por críticos do boxe profissional
para explicar a persistência desse esporte é a de que os lutadores são ingênuos, crédulos, equivocados ou mal-informados a respeito da verdadeira
natureza de sua ocupação — em suma, simples marionetes (ou bobos*)
* No original, “dupes (ordopes)” em referência, segundo o autor, à noção de “cultural dopes”, de
Harold Garfinkel (N. do T.).

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PUTAS, ESCRAVOS E GARANHÕES

nesse “show business sangrento” ao qual dedicam bons pedaços de suas
vidas e de seus corpos. Na verdade, porém, longe de acalentar quaisquer
ilusões, os boxeadores profissionais são extremamente conscientes quanto ao fato de terem entrado em um universode exploração desenfreada
em que a mentira, a manipulação, o ocultamento dos fatos e os maus-tratos são a regra, e em que os danos ao corpo e o desmantelo da vida pessoal são conseqüências normais do ofício. Um dos membros da academia
de boxe no South Side de Chicago onde fui aprendiz durante cerca de
três anos descreve da seguinte forma as relações entre os que fazem parte do mundo dosringues: “Todo mundo tenta pisar em todo mundo, todo
mundo tenta machucar todo mundo, e ninguém confia em ninguém”. As
provas tangíveis dos estragos corporais e da aflição pessoal que decorrem da profissão são muito visíveis para os boxeadores, como diz um
peso-médio negro do West Side de Chicago: “Só o que você tem que fazer
é dar um pulo nas academias e dar uma olhada: tem um monte de caras,
suaspernas estão acabadas, sacou, eles só ficam por ali sem fazer nada.
Você pensa na carreira deles, quando eles estavam subindo eles estavam
até bem, mas depois, tchuff (triste), eles não têm nada para lhes dar um
apoio, é mau”.
Os lutadores são unânimes em afirmar que esse jogo está cheio de
“empresários ladrões” (“tem um monte deles, daqueles que estão a fim
de fazer uma grana rápida”), econsideram axiomático que os empresários e organizadores de lutas são “mercadores de carne” que não hesitarão em mandá-los “lutar com o King Kong por dez centavos” se isso lhes
parecer lucrativo2. “Se você é um lutador, e principalmente se você não
tem g e nte graúda do seu lado”, explica um peso-leve afro - a m e r i c a n o
que trabalha ocasionalmente como eletricista, após um breve período...
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