Psicanalise

64322 palavras 258 páginas
João Ubaldo Ribeiro

Diário Do Farol
Não se deve confiar em ninguém O conteúdo desta narrativa é honesto, corajoso e escrupulosamente verdadeiro, com exceção dos nomes próprios citados, mas seu final poderá ser falso - o que ainda não sei, porque acabo de começar e não pretendo fazer revisões, para não ser traído pela improvável, mas possível, tentação de alterar, mesmo que sutilmente, fatos que não devo e não quero alterar. Vejo-me na obrigação de fazer esta advertência porque, quanto ao restante da história, se é que se pode dar tal nome a este relato, não me é tolerável haver dúvidas, veiculadas por quem quer que seja. Isto destruiria qualquer sentido para o que agora escrevo, pelo menos do meu ponto de vista, que é o único que me concerne. Conto aqui a mais integral verdade e acredito mesmo que me enfureceria a ponto de matar quem duvidasse dela. Nunca escrevi nada além de eventuais cartas, bilhetes ou sermões e o que escrevo neste instante não vem da ambição tola de fazer um livro, mas de um impulso vital e essencial à minha completa existência. Haverá quem desconfie da veracidade do que lerá aqui, mas se tratará de um ingênuo, um alienado nefelibata, ou um dos incontáveis desavisados que não acreditam que o ser humano é irreparavelmente solitário, do nascimento à morte, convicção que a todo momento fragorosamente se prova insustentável, mas da qual todos parecem necessitar e se recusam a aceitar as irretorquíveis evidências em contrário. Escusando-me por repetir truísmo tão martelado, mas movido pelo conhecimento de que os truísmos são parte inseparável da boa retórica narrativa, até porque a maior parte das pessoas não sabe ler e é no fundo muito ignorante, rol no qual incluo arbitrariamente você, repito o que tantos já dizem e vivem repetindo, como quem usa chupetas: a realidade é, sim, muitíssimo mais inacreditável do que qualquer ficção, pois esta requer uma certa arrumação falaciosa, a que a maioria dá o nome de verossimilhança. Mas ocorre

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