prosa e poesia

Páginas: 22 (5491 palavras) Publicado: 10 de agosto de 2014
PAZ, Octavio. O Arco e a Lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. Col. Logos. Tradução de Olga Savary (p.15-31)


INTRODUÇÃO

Poesia e Poema

A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia re­vela este mundo; cria outro. Pãodos eleitos; alimento ­maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súpli­ca ao vazio, diálogo com a ausência, é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Ex­pressão histórica de raças, nações, classes. Negaa his­tória, em seu seio resolvem-se todos os conflitos objetivos e o homem adquire, afinal, a consciência de ser algo mais que passagem. Experiência, sentimento, emoção, intuição, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fru­to do cálculo. Arte de falar em forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras. Imitação dos antigos, cópia do real, cópia de uma cópia daIdéia. Loucura, êxtase, logos. Regresso à infância, coi­to, nostalgia do paraíso, do inferno, do limbo. Jogo, trabalho, atividade ascética. Confissão. Experiência inata. Visão, música, símbolo. Analogia: o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia univer­sal. Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Vozdo povo, língua dos escolhidos, pa­lavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, po­pular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, fa­lada, pintada, escrita, ostenta todas as faces, embora exista quem afirme que não tem nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!
Como não reconhecer em cada uma dessas fórmulas o poetaque as justifica e que, ao encarná-las, lhes dá vida? Expressões do algo vivido e padecido, não temos outro remédio senão aderirmos a elas - condenados a abando­nar a primeira pela segunda e esta pela seguinte. Sua própria autenticidade mostra que a experiência que jus­tifica cada um desses conceitos os transcende. Será pre­ciso, portanto, interrogar os testemunhos diretos da experiência poética. Aunidade da poesia só pode ser apreendida através do trato desnudo com o poema.
Perguntando ao poema pelo ser da poesia, não confun­dimos arbitrariamente poesia e poema? Já Aristóteles di­zia que "nada há de comum, exceto a métrica, entre Ho­mero o Empédocles; e por isso com justiça se chama de poeta o primeiro e de filósofo o segundo". E assim é: nem todo poema - ou, para sermos exatos, nemtoda obra construída sob as leis da métrica - contém poesia. No entanto, essas obras métricas são verdadeiros poemas ou artefatos artísticos, didáticos ou retóricos? Um sone­to não é um poema mas uma forma literária, exceto quando esse mecanismo retórico - estrofes, metros e rimas - foi tocado pela poesia. Há máquinas de rimar, mas não de poetizar. Por outro lado, há poesia sem poe­mas; paisagens,pessoas e fatos podem ser poéticos: são poesia sem ser poemas. Pois bem, quando a poesia acontece como uma condensação do acaso ou é uma cristali­zação de poderes e circunstâncias alheios à vontade cria­dora do poeta, estamos diante do poético. Quando – passivo ou ativo, acordado ou sonâmbulo – o poeta é o fio condutor e transformador da corrente poética, estamos na presença de algo radicalmentedistinto: uma obra. Um poema é uma obra. A poesia se polariza, se congrega e se isola num produto humano: quadro, can­ção, tragédia. O poético é poesia em estado amorfo; o poema é criação, poesia que se ergue. Só no poema a poesia se recolhe e se revela plenamente. É lícito perguntar ao poema pelo ser da poesia, se deixamos de con­cebê-lo como uma forma capaz de se encher com qual­quer conteúdo. O...
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