Presente por Encomenda

Páginas: 7 (1746 palavras) Publicado: 5 de fevereiro de 2014
PRESENTE POR ENCOMENDA

Desceu do ônibus. Procurou algum lugar para sentar, descansar do sacolejo o corpo e do barulho de motor a cabeça; afinal, estava uma tarde fresca, muitos pássaros fazendo algazarra por perto. Distraía-se não apenas com as interjeições das pessoas que se reencontravam, mas também com uma mãe que gritava com seu filho Lucas, com os pigarros de um velho e mesmo com asrisadas de algumas mocinhas. Imaginou o sol cochilando atrás de alguma colina... o que o fez lembrar-se da infância, quando o avô apartava gado, aquela mistura de poeira e sol alaranjado sobre o curral.
Havia tanto tempo que era cego que, às vezes, tinha dificuldade em recordar a feição das coisas. Ainda bem que tivera uma infância feliz, com muitas estripulias de menino, muitas cores na memória.Deu um largo suspiro, atentando de novo ao barulho dos pássaros. Buscou ao lado a sua velha bengala. No lugar, sentiu um objeto. Tateou a coisa, aquilo lhe pareceu ser algo como uma filmadora. Pegou sua pequena mala com alguns pares de roupa e boa parte de suas economias, e também sua bengala. Saiu à procura de um hotel. O ônibus partiria bem cedo. Precisava chegar o quanto antes na capital. Ofilho da falecida esposa estava preso. O dia seguinte prometia na estrada.
Não seria o primeiro deficiente visual a se virar sozinho em lugar desconhecido. Teria chamado o Quinzinho, se não fosse a urgência da viagem. Foi perguntando até chegar ao único hotel da cidade. Na verdade, era um “dormitório”, que cheirava excessivamente a produtos de limpeza, em contraste ao mofo evidente. O recepcionistagritou pela Hermínia, que veio às pressas escada abaixo arrumar um quartinho sofrível ao lado da recepção. Havia uma cama de solteiro, com o colchão de molas cheio de deformidades, mais o travesseiro duro e fedido. Deitou, o cansaço era maior, desfalecia no lençol.
Estava quase cochilando, quando ouviu batidas na porta. Era o recepcionista, a respeito de uma encomenda dos Correios. “Encomenda?Engano!”, respondeu da cama. O outro insistiu. O nome do ocupante do quarto estava escrito no envelope. Everaldo, conforme estava no registro feito pouco mais de uma hora antes. Era estranho: muitos meses antes, um outro Everaldo se hospedara ali. O cego se levantou, irritado, abriu apenas o necessário para entregar seus documentos pessoais, pouco mais de uma hora naquela cidade e agora isso.Impossível.
Os dados conferiram. Não havia informações sobre o remetente. O recepcionista parecia estar bastante curioso. Ele próprio teria desembrulhado, se pudesse. Disse que o moço da entrega não era o de costume, o sujeito apenas entregou sem ao menos pedir para assinar no canhoto da entrega. Everaldo pensou não receber, a história estava muito mal contada, mas, com tantos problemas na cabeça,queria mesmo era se livrar daquela presença incômoda. Abriu a porta, pegou o pacote, sentiu o peso, balançou, pôs sobre a cama, foi abrindo devagar. Poderia ser qualquer coisa, até uma bomba – pensou. A curiosidade foi maior que o receio. Adivinhem o que era? Acertou quem pensou na filmadora. Entretanto, isso não era tão óbvio para os nossos personagens, que ficaram realmente surpresos, sementender o porquê daquela troça.
Ao passo que sentia raiva por ter perdido um tempo precioso, o homem nutria os mais surreais pensamentos. O que o impedia de filmar? Desse o que desse, não poderia menosprezar uma oferta do destino – convencia-se. Antes que um pensamento mais lúcido o acordasse, pediu ao recepcionista para ligar aquela geringonça. O pobre-diabo sequer sabia direito o que era aquilo,muito menos mexer. Talvez o filho de Hermínia, um garoto de 11 anos. Gustavo desceu junto com mãe e em menos de minuto pôs o aparelho ligado na mão de Everaldo. Tão logo ajeitou no punho, começou a filmar tudo em volta, pincelando enquadramentos aleatórios. Era um modelo compacto, digital. “O ponto de vista de um cego!”, dizia a si mesmo, iludido. O garoto sugeriu que ele utilizasse o visor. “Não...
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