No íntimo da visita: uma crônica da revista vexatória

Páginas: 6 (1258 palavras) Publicado: 10 de novembro de 2012
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No íntimo da visita: uma crônica da revista vexatória

Haroldo Caetano da Silva

A rotina era aquela conhecida de sempre no dia de visitas. Centenas de mulheres, com suas sacolas plásticas e crianças de todas as idades, em filas onde não se sabia onde era o começo nem o fim. Vendedores ambulantes anunciando de tudo, desde água mineral a guarda-chuvas e até mesmo barracas de aluguel.Choro, conversa em voz alta, reclamações sobre o calor ou a chuva ou a demora na fila, empurra-empurra e algumas brigas, produziam uma algaravia ensurdecedora. As funcionárias da prisão em seus postos, prontas para a revista, acostumaram-se com o trabalho e alardeavam a própria eficiência, pois há anos não se flagrava nada de mais sério com as visitantes. Da última vez digna de nota, ocorrida no anode 2007, uma senhora de 78 anos foi apanhada tentando entrar com “uma porção de maconha junto com um celular nas partes íntimas”, conforme constou do relatório. À época, o neto daquela senhora, dependente químico, passava os dias consumindo toda sorte de drogas na prisão, “mas drogas que não chegavam pelas visitas”, sempre se defendiam as competentes fiscais de visitas. Naquele domingo, entretanto,a rotina se alterou. Um fato inusitado e sem precedentes acabava de acontecer. E foi um bafafá comentado por meses a fio. O relato a seguir é de uma das fiscais de visitas que, constrangida e indignada, a tudo assistiu, mas que prefere não se identificar para evitar aborrecimentos no trabalho. – Dona Bertolina! Veio ver o maridão, hein!? – Pois é, minha filha. Hoje é o aniversário do Jeneilson.Responde a visitante, expondo um sorriso meio forçado.

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– Então tá. Pode começar. Diz a fiscal da Penitenciária da Esbórnia, encerrando ali as amenidades. E Dona Bertolina, 50 anos de idade, embora aparentasse bem mais, despe-se com a rapidez desde sempre exigida, começando pelo vestido longo e azul, depois o sutiã, os brincos e os sapatos. Estava mesmo vestida para celebrar a importantedata. Bonita e elegante. Naquele domingo, entretanto, hesita em tirar a calcinha. – Dona Bertolina, a senhora conhece o procedimento. Alertou a fiscal de visitas. – Tem que tirar tudo. – Mas minha filha, por favor, venho aqui há oito anos e nunca dei problema pra ninguém... Pondera a mulher, visivelmente consternada. – Nem mais nem menos! Tira logo a calcinha e arreganha que eu quero ver no espelhoe bem de perto. Ordena a agora impaciente funcionária, já cansada das dezenas de revistas feitas naquele domingo, ao mesmo tempo em que apontava para Dona Bertolina a turba barulhenta de mulheres à porta da penitenciária, na interminável fila de espera. E Dona Bertolina, com toda a vergonha do mundo estampada no rubor de sua face, tira muito a contragosto a roupa íntima, expondo a vagina recémdepilada. A jovem funcionária, com idade para ser filha da visitante, dá então o seu grito de vitória: – Arrá! Então era isso o que a senhora queria esconder!? Logo a senhora, Dona Bertolina, na sua idade! Aparando a perseguida pro sacana do seu marido!? Mas é sem-vergonha mesmo, hein! A Esbórnia, esse belo e admirado país, embora seja uma das maiores potências econômicas do planeta, tem cadeiasparecidas com campos de concentração e com lotação muito acima da capacidade. Lá também existe o costume, que vem de tempos imemoriais, em que a revista de mulheres que visitam seus companheiros, parentes ou amigos presos, é

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feita mediante a nudez das visitantes e em grupos, sem qualquer privacidade. Nem precisam de lei para isso e a justificativa é a de que sempre foi assim e assim deve ser.Diferentemente do que acontece nos seus aeroportos, por onde só circulam pessoas de bem e que, por isso mesmo, dispõem de modernos equipamentos de revista dos passageiros, que não precisam ficar nus antes de entrar nos aviões, as prisões da Esbórnia não carecem de tamanho luxo. Meninas, adolescentes, mulheres adultas ou idosas, grávidas ou menstruadas, às vezes doentes ou com dificuldade de...
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