moral e ética

Páginas: 134 (33272 palavras) Publicado: 15 de setembro de 2014
Moral e ética: dimensões intelectuais e afetivas

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Moral e ética

O objetivo deste capítulo é o de apresentar conceitos que sejam úteis para o
empreendimento psicológico de compreensão das ações morais. Para tanto,
apresentarei definições diferentes e complementares de duas palavras que têm
cada vez mais freqüentado nossas conversas cotidianas: moral e ética. Peço,
portanto, aoleitor, que faça o esforço de, momentaneamente, se despir das
definições que ele habitualmente atribui aos dois vocábulos, e que aceite me
seguir nos meandros de minha argumentação. Mas por que falar em argumentação, se se trata apenas de dar definições? Não seria mais simples tão-somente
apresentá-las? Não, porque definir implica fabricar conceitos, e conceitos são
criados para responder aperguntas. Acho que foi Edgard Morin que disse que
o erro da educação (em todos os níveis) é o de ensinar as respostas que a
filosofia e a ciência deram, sem deixar claro para os alunos quais eram as perguntas que as motivaram. Não quero aqui cair em erro parecido e me limitar a
dar definições sem minimamente demonstrar em que medida são úteis, até
necessárias, para tratar o tema deste livro, asaber: dimensões psicológicas da
moralidade.
Para tanto, comecemos por avaliar um problema central das abordagens
psicológicas da moral (área chamada de psicologia moral): as relações entre
razão e afetividade. Será justamente para tentar lançar luzes sobre tal relação
que diferenciar moral e ética será, penso, profícuo.

RAZÃO E AFETIVIDADE
Seja qual for a formação de quem lê estas linhas,certamente não ficará
espantado se eu lhe disser que o fenômeno da moralidade recebeu e recebe
diferentes interpretações psicológicas. Haverá algum tópico sobre o qual esta-

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Yves de La Taille

rão de acordo psicólogos de diferentes abordagens teóricas? Certamente não,
e esta espécie de diáspora conceitual que caracteriza a psicologia, e as chamadas ciências humanas em geral, é bemconhecida de todos. Alguns chegam a
dizer que não existe Psicologia, mas sim “psicologias”. Tal diversidade é, às
vezes, baseada em reflexões epistemológicas conscientes, como é o caso, por
exemplo, da psicanálise freudiana e do construtivismo piagetiano. Porém também é, às vezes, decorrência de laxismo intelectual e de modismos, o que faz
Iraí Carone (2003) perguntar-se como uma ciência podeacreditar ter tido tantas mudanças de paradigmas em tão pouco tempo.
A psicologia moral não foge à regra: ela é palco da diversidade teórica, e
também de modismos, em geral, decorrentes de demandas malformuladas de
normatização dos comportamentos alheios, notadamente das crianças. Encontramos diversidade no que tange aos métodos de pesquisa, baseando-se uns
em estudos de casos clínicos, outrosem entrevistas clínicas desencadeadas
por dilemas, outros ainda em observações de comportamento; há os que
privilegiam os experimentos de laboratório, outros há que preferem o emprego de questionários. Como era de se esperar, a esta diversidade de método
corresponde uma diversidade de abordagens teóricas e de conceitos decorrentes: falarão uns em superego, outros em construção, outros ainda eminstinto;
ali fala-se em condicionamento, acolá em representações sociais. Assim, o adulto
preocupado com educação moral terá na sua frente uma vasta gama de opções
pedagógicas, freqüentemente contraditórias entre si: enfatizar relações afetivas
entre os filhos e os pais, apelar para a reflexão, confiar na “sabedoria” biológica do ser humano, disciplinar as crianças, dar-lhes um “banho” decultura, e
outras mais.
No seio dessa diversidade teórica – que seria benéfica, se houvesse diálogo entre as várias correntes, o que raramente acontece –, proponho que escolhamos duas linhas de demarcação. A primeira: ênfase na razão ou na afetividade;
a segunda: definição de o que é a moral. Aparentemente estranhas uma à outra,
veremos que essas duas fronteiras coincidem na separação dos...
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