Mito

Páginas: 6 (1361 palavras) Publicado: 15 de maio de 2014
Mito n° 3
“Português é muito difícil”
Essa afirmação preconceituosa é prima-irmã da idéia que
acabamos de derrubar, a de que “brasileiro não sabe português”.
Como o nosso ensino da língua sempre se baseou na norma
gramatical de Portugal, as regras que aprendemos na escola em boa
parte não correspondem à língua que realmente falamos e
escrevemos no Brasil. Por isso achamos que“português é uma
língua difícil”: porque temos de decorar conceitos e fixar regras que
não significam nada para nós. No dia em que nosso ensino de
português se concentrar no uso real, vivo e verdadeiro da língua
portuguesa do Brasil é bem provável que ninguém mais continue a
repetir essa bobagem.
Todo falante nativo de uma língua sabe essa língua. Saber uma
língua, no sentido científico doverbo saber, significa conhecer
intuitivamente e empregar com naturalidade as regras básicas de
funcionamento dela.
Está provado e comprovado que uma criança entre os 3 e 4
anos de idade já domina perfeitamente as regras gramaticais de sua
língua! O que ela não conhece são sutilezas, sofisticações e
irregularidades no uso dessas regras, coisas que só a leitura e o
estudo podem lhe dar.Mas nenhuma criança brasileira dessa idade
vai dizer, por exemplo: “Uma meninos chegou aqui amanhã”. Um
estrangeiro, porém, que esteja começando a aprender português,
poderá se confundir e falar assim. Por isso aquela piadinha que muita gente solta quando vê uma criancinha estrangeira falando —
“Tão pequeno e já fala tão bem [pg. 35] inglês [ou outra língua]” —
tem seu fundo de verdade:muito pouca gente conseguirá falar uma
língua estrangeira com tanta desenvoltura quanto uma criança de
cinco anos que tem nela sua língua materna! Por quê? Porque toda
e qualquer língua é “fácil” para quem nasceu e cresceu rodeado por
ela! Se existisse língua “difícil”, ninguém no mundo falaria húngaro,
chinês ou guarani, e no entanto essas línguas são faladas por
milhões de pessoas,inclusive criancinhas analfabetas!
Se tanta gente continua a repetir que “português é difícil” é
porque o ensino tradicional da língua no Brasil não leva em conta o
uso brasileiro do português. Um caso típico é o da regência verbal. O
professor pode mandar o aluno copiar quinhentas mil vezes a frase:
“Assisti ao filme”. Quando esse mesmo aluno puser o pé fora da sala
de aula, ele vaidizer ao colega: “Ainda não assisti o filme do Zorro!”
Porque a gramática brasileira não sente a necessidade daquela
preposição a, que era exigida na norma clássica literária, cem anos
atrás, e que ainda está em vigor no português falado em Portugal, a
dez mil quilômetros daqui! É um esforço árduo e inútil, um
verdadeiro trabalho de Sísifo, tentar impor uma regra que não
encontrajustificativa na gramática intuitiva do falante.
A prova mais visível disso é que aquelas mesmas pessoas que,
por causa da pressão policialesca da escola e da gramática
tradicional, usam a preposição a depois do verbo assistir, também
dizem que “o jogo foi assistido por vinte mil pessoas”. Ora, se o
verbo assistir pede uma preposição é porque ele não é transitivo
direto, e só os verbostransitivos diretos podem, segundo as
gramáticas, assumir a voz passiva. Desse modo, quem diz “assisti
ao [pg. 36] jogo” não poderia, teoricamente, dizer “o jogo foi assistido”. Só que essa esquizofrenia gramatical acontece o tempo
todo. Basta ler jornais como a Folha de S. Paulo e o Estado de S.
Paulo, cujos manuais de redação decretam que o verbo assistir tem
que vir obrigatoriamenteseguido da preposição a. Na voz ativa, a
preposição aparece: “Vinte mil pagantes assistiram ao jogo”, porque
assim manda o manual da redação. Mas na hora de usar a voz
passiva, a gramática intuitiva brasileira do redator se manifesta, e
a gente encontra milhares de exemplos do tipo “o jogo foi assistido
por vinte mil pagantes”. Essas pessoas, então, ficam em cima do
muro: “acertam” na...
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