Maçonaria e igreja

Páginas: 14 (3409 palavras) Publicado: 22 de fevereiro de 2011
Maçonaria e Igreja:
o equívoco de D. José Policarpo

Assinalando o início da Quaresma, o Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, difundiu uma Nota Pastoral sobre “A Páscoa da Eucaristia”. Nessa Nota, Sua Eminência desce a fazer uma referência brusca àquilo que designa genericamente por “Maçonaria”: segundo D. José, “um católico, consciente da sua fé e que celebra a Eucaristia,não pode ser mação”.

O pretexto tomado por Sua Eminência para se pronunciar sobre a Ordem Maçónica foi a recente realização, numa das capelas mortuárias da Basílica da Estrela, em Lisboa, de uma cerimónia, descrita na Imprensa como “ritual maçónico”, em honra do falecido presidente do Tribunal Constitucional, Luís Nunes de Almeida – cerimónia efectuada sob a égide de uma velha instituição civil,de raiz anti-clerical, denominada Grémio Lusitano, sob a qual opera uma organização que se reclama dos mais altos valores maçónicos: o Grande Oriente Lusitano. D. José considerou a realização de tal “ritual” uma “iniciativa imprudente e indevida”; e, neste aspecto, não seremos nós a apreciar aqui e agora as suas razões.

Pouco importa, porém, o pretexto: a querela entre Grémio e Patriarcado,surgindo como uma disputa territorial enunciada no domínio do litúrgico, é muito menos importante do que as questões de princípio, sérias e profundas, que a Nota Pastoral suscita. Evitando qualquer polémica sobre a escassa solidez historiográfica da Nota de D. José Policarpo, impõe-se em todo o caso que Sua Eminência Reverendíssima tenha acesso ao mais elementar esclarecimento sobre a instituição aque se refere quando fala de “Maçonaria”.

Afirma D. José Policarpo que “é longa e atribulada” a história “das relações da Maçonaria com a Igreja durante os últimos três séculos”. Uma afirmação tão genérica requereria, em circunstâncias normais, uma precisão focalizadora. Não a tendo feito o Senhor Cardeal Patriarca, é forçoso que a façamos nós no início desta reflexão: ao escrever “a Igreja”,Sua Eminência refere-se – enunciemo-lo com clareza – à Igreja Católica Apostólica Romana, um dos grandes ramos da Fé Cristã; e, quando diz “a Maçonaria”, só pode referir-se às organizações que, embora usando um vocabulário próprio das Obediências Maçónicas regulares, pelo contrário se tornaram célebres pelo seu anti-clericalismo e irreligiosidade, sobretudo em França e em Itália, mas também emPortugal – a chamada “Maçonaria Latina”.

Este equívoco estrutural, sendo aliás comum entre pessoas menos informadas, aconselha a que se estabeleçam com rigor os limites conceptuais de organizações que, usando palavras e designações iguais ou semelhantes, visam afinal fins tão diversos.

A Maçonaria, tal como hoje a conhecemos historicamente, agregou a si tradições e práticas especulativas queremontam ao Antigo Egipto, à Jerusalém do tempo da construção do Templo, às Cruzadas, à edificação religiosa medieval; por isso usa instrumentos simbólicos identificáveis com todos estes aspectos, bem visíveis, por exemplo, nas reflexões maçónicas sobre a morte e a vida perene, na forte estruturante hebraica das suas máximas e até dos seus ritos, na alegoria da “construção do Templo” e na depuraçãoque emula a cavalaria espiritual de base e expressão cristã.

A moderna Maçonaria teve o seu berço em Inglaterra, no início do século XVIII: logo a partir de 1717 se estruturou como organização, elaborou e fixou os seus textos teóricos fundacionais e passou a tutelar a “regularidade” – isto é, a “reconhecer” ou a “não reconhecer” as potências maçónicas que, um pouco por todo o mundo, foramnascendo e buscando certificação. O poder de aceitar ou não como “regular” uma obediência maçónica é administrado com recurso a dois textos “doutrinários” basilares: as Constituições de Anderson (de que se fez guardiã, em 1723, a loja-mãe da Maçonaria Universal, a Grande Loja Unida de Inglaterra), e os Landmarks (o corpus normativo dos maçons fundadores). Assim, são aceites como “regulares” as...
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