livro Microfísica do Poder- Foucault

Páginas: 480 (119927 palavras) Publicado: 20 de agosto de 2013
VERDADE E PODER

Alexandre Fontana:
Você poderia esboçar brevemente o trajeto que o levou de seu trabalho sobre a loucura na idade
clássica ao estudo da criminalidade e da delinqüência?
Michel Foucault:
Quando fiz meus estudos, por volta dos anos 50−55, um dos problemas que se colocava era o do
estatuto político da ciência e as funções ideológicas que podia veicular. Não era exatamente oproblema Lyssenko que dominava, mas creio que em torno deste caso escandaloso, que durante
tanto tempo foi dissimulado e cuidadosamente escondido, apareceu uma série de questões
interessantes. Duas palavras podem resumi−las: poder e saber. Creio haver escrito a História da
Loucura dentro deste contexto. Para mim, tratava−se de dizer o seguinte: se perguntarmos a uma
ciência como a físicateórica ou a química orgânica quais as suas relações com as estruturas
políticas e econômicas da sociedade, não estaremos colocando um problema muito complicado?
Não será muito grande a exigência para uma explicação possível? Se, em contrapartida, tomarmos
um, saber como a psiquiatria, não será a questão muito mais fácil de ser resolvida porque o perfil
epistemológico da psiquiatria é poucodefinido, e porque a prática psiquiátrica está ligada a uma
série de instituições, de exigências econômicas imediatas e de urgências políticas de
regulamentações sociais? No caso de uma ciência tão "duvidosa" como a psiquiatria, não
poderíamos apreender de forma mais precisa o entrelaçamento dos efeitos de poder e de saber?
No Nascimento da Clínica, foi a mesma questão que quis colocar a respeito damedicina. Ela
certamente possui uma estrutura muito mais sólida do que a psiquiatria, mas também está
enraizada profundamente nas estruturas sociais. O que me "desconcertou" um pouco, na época, foi
o fato de que esta questão que eu me colocava não interessou em absoluto aqueles para quem eu
a colocava. Consideraram que era um problema politicamente sem importância, e
epistemologicamente semnobreza.
Creio que havia três razões para isto. A primeira é que o problema dos intelectuais marxistas na
França − e nisto desempenhavam o papel que lhes era prescrito pelo P.C.F. − era de se fazer
reconhecer pela instituição universitária e pelo establishment; portanto, deviam colocar as mesmas
questões que eles, tratar dos mesmos problemas e dos mesmos domínios. "Apesar de sermos
marxistas,não estamos alheios ao que vos preocupa; porém, somos os únicos a dar às vossas
velhas preocupações soluções novas". O marxismo queria se fazer aceitar como renovação da
tradição liberal, universitária (como, de modo mais amplo, na mesma época, os comunistas se
apresentavam como os únicos suscetíveis de retomar e revigorar a tradição nacionalista). Daí, no
domínio que tratamos, o fato deterem querido retomar os problemas mais acadêmicos e mais
nobres" da história das ciências. A medicina, a psiquiatria, não eram nem muito nobres nem muito
sérias, não estavam à altura das grandes formas do racionalismo clássico.
A segunda razão é que o estalinismo pós−estalinista, excluindo do discurso marxista tudo o que
não fosse repetição amedrontada do que já tinha sido dito, não permitia aabordagem de caminhos

ainda não percorridos. Não havia conceitos já formados, vocabulário validado para tratar de
questões como a dos efeitos de poder da psiquiatria ou o funcionamento político da medicina.
Enquanto que inumeráveis trocas tinham ocorrido desde Marx até a época atual, passando por
Engels e Lênin, entre os universitários e os marxistas, realimentando toda uma tradição dediscurso
sobre a "ciência" no sentido que lhe era dado no século XIX, os marxistas pagavam sua fidelidade
ao velho positivismo com uma surdez radical com relação a todas as questões de psiquiatria
pavloviana. Para certos médicos próximos do P.C.F., a política psiquiátrica, a psiquiatria como
política, não eram coisas honrosas.
Aquilo que eu havia tentado fazer neste domínio foi recebido com um...
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