Literatura de são tomé e princípe

Páginas: 11 (2646 palavras) Publicado: 11 de junho de 2013
LITERATURA DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE
 
Índice
Introdução à Literatura de São Tomé e Príncipe
Nota sobre a Literatura Santomense
A poesia de Francisco José Tenreiro
 
 
 
INTRODUÇÃO À LITERATURA DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE
 Manuel Ferreira 
 
     A evolução social de São Tomé e Príncipe teria sido paralela, em muitos aspectos, à de Cabo Verde. Mas, em meados do século XIX, implantando-seosistema de monocultura, a burguesia negra e mestiça vai ser violentamente substituída pelos monopólios portugueses, o processo social do Arquipélagoalterado e travada a miscigenação étnica e cultural. Mesmo assim, não podem deixar de ser considerados os efeitos do contacto de culturas. A suapoesia, de um modo geral, exprime exactamente isso; mas, na essência, é genuinamente africana.A primeira obra literária de que se tem conhecimentorelacionada com S. Tomé e Príncipe é o modesto livrinho de poemas Equatoriaes (1896) do português António Almada Negreiros (1868-1939), que aliviveu muitos anos e terminou por falecer em França. A última é a de um moderno poeta português, crítico, e professor universitário em Cardiff, AlexandrePinheiro Torres, cujo título, A Terra de meu pai (1972), nos forneceuma pista: memorialismo bebido na ilha, por artes superiores de criação literáriametamorfoseada na ilha «que todos éramos neste país solitário». Sem uma revista literária, sem uma actividade cultural própria, sem uma imprensasignificativa, apesar do seu primeiro periódico, O Equador, ter sido fundado em 1869, com uma escolaridade mais do que carencial osreduzidos quadrosliterários do Arquipélago naturalmente só em Portugal encontraram o ambiente propício à revelação das suas potencialidades criadoras. O primeiro casoacontece logo nos fins do século XIX com Caetano da Costa Alegre (1864-1890), (Versos, 1916) cuja obra foi deixada inédita desde o século passado. Cabe aqui, todavia, uma referência particular ao teatro a que poderemos chamar «popular», pelas características e relevância que assumenoarquipélago de S. Tomé e Príncipe. Trata-se, em especial, de duas peças: O tchiloli ou A tragédia do Marquês de Mântua e de Carloto Magno e do Autode Floripes, mas com preferência para a primeira. A segunda oriunda da tradição popular portuguesa; e O tchiloli supõe-se ser o auto do dramaturgoportuguês do século XVI,de origem madeirense, Baltasar Dias, levado, tudo leva a crer, pelos colonos medeirenses na época da ocupação e povoamento. Reapropriados pela população de S. Tomé (e do Príncipe) estão profundamente institucionalizados no Arquipélago, principalmente O tchiloli mercê da actuação de vários grupos teatrais populares que, continuadamente, se dão à sua representação, enriquecida por uma readaptação do texto eencenação, cenografia e ilustração musical notáveis.Parece ter sido um homem infeliz, em Lisboa, o autor de Versos, Costa Alegre:
Tu tens horror de mim, bem sei, Aurora,
Tu és dia, eu sou a noite espessa
     «Aurora» aqui é um ente humano e não um fenómeno cósmico. A ambiguidade resolve-se na leitura completa do poema. Caetano da Costa Alegreutiliza este signo polissémico com a intenção, ao cabo, de ele traduzir a cor branca:
És a luz, eu a sombra pavorosa,
Eu sou atua antítese frisante.
     A poesia de Caetano da Costa Alegre, na quase totalidade, funciona espartilhada num mecanismo antitético. Exprime a situação desencantada dohomem negro numa cidade europeia, neste caso Lisboa. Versos é, porventura, a mais acabada confissão que se conhece, quiçá mesmo nas outrasliteraturas africanas de expressão europeia, do negro alienado. Costa Alegre, não se dando conta (impossível,diríamos, no século XIX e no tempo cultural e político da área lusófona) das contradições que o bloqueavam, faz-se cativo da sua condição de humilhado:
A minha côr é negra,
Indica luto e pena;
És luz, que nos alegra,
A tua côr morena.
É negra a minha raça,
A tua raça é branca,
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Todo eu sou um defeito
    ...
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