Linguagem como figuração e como instrumento

Páginas: 58 (14365 palavras) Publicado: 29 de abril de 2013
Memória e sociedade: a dimensão teórica - Maria Inês Mancuso


Memória, representação e identidade

Eu, Senhor, cogito este problema, trabalho em mim mesmo. (...) Agora já não escalo as regiões do firmamento; não meço a distância dos astros; não procuro as leis do equilíbrio da Terra; sou eu que me lembro, eu, o meu espírito. Não é de admirar que esteja longe demim tudo o que não sou eu. Todavia, que há mais perto de mim do que eu mesmo?
Oh! Nem sequer chego a compreender a força da minha memória, sem a qual não poderia pronunciar o meu próprio nome! (Santo Agostinho, 1973, p.207)

O que é a memória?


“Que amo eu quando amo o meu Deus?” pergunta-se Santo Agostinho em Confissões para, em seguida, se dedicar adescrever a natureza do homem e a memória. Parte da idéias de que o homem é duplo: por ser um homem “servem-me um corpo e uma alma; o primeiro é exterior, a outra interior. Destas duas substâncias, a qual eu deveria perguntar quem é o meu Deus, que já tinha procurado com o corpo, desde a terra ao céu, até onde pude enviar, como mensageiros, os raios dos meus olhos?” (Santo Agostinho, 1973, p. 199)Responde que não é pela vida que enche o corpo que poderá encontrar o seu Deus, mas pela alma, por esta “outra força que não só vivifica, mas também sensibiliza a carne que o Senhor (...) criou" (Santo Agostinho, 1973, p.200). Não é a alma, porém a memória que ele passa então a discutir, sugerindo a identidade entre alma e memória.

Grande é a potência da memória, ó meu Deus! Tem não sei quêde horrendo, uma multiplicidade profunda e infinita. Mas isto é o espírito, sou eu mesmo. E que sou eu, ó meu Deus? Qual é a minha natureza? Uma vida variada de inumeráveis formas com amplidão imensa.
Eis-me nos campos da minha memória, nos seus antros e cavernas sem número, repletas, ao infinito, de toda a espécie de coisas que lá estão gravadas, ou por imagens como os corpos, ou por simesmas, como as ciências e as artes, ou, então, por não sei que noções e sinais, como os movimentos da alma, os quais, ainda quando não a agitam, se enraízam na memória, posto que esteja na memória tudo o que está na alma. (...) Tão grande é a potência da memória e tal o vigor da vida que reside no homem vivente e mortal! (Santo Agostinho, 1973, p.207/208)


A identidade é sugerida — “Masisto é o espírito, sou eu mesmo” — e negada — “posto que esteja na memória tudo o que está na alma”. Sentir e lembrar que se sentiu são distintos e isto demonstra a não identidade entre memória e alma. Se a memória fosse a alma, esta se perturbaria com as lembranças dos afetos. As quatro perturbações da alma — desejo, medo, alegria e tristeza — não a alteram, porém, quando são lembradas. ParaSanto Agostinho, e aí está algo de equivalência, é como se a memória fosse o ventre da alma. Sente-se com a alma, e o que é sentido passa para a memória. Lembrar-se é retirar da memória o que ela contem, e que foi percebido, sentido ou aprendido pela alma. Se os afetos são o alimento da alma, é na memória que eles se encerram depois de serem sentidos, ou ‘comidos’, mas aí já não têm sabor.A idéia de duplo, porém, persiste: o homem é, simultaneamente, corpo e alma, que contém a memória, ou corpo e memória. Essa idéia é retomada por Durkheim, em As Formas Elementares da Vida Religiosa, para justificar a possibilidade que o homem tem de, na vida intelectual, ultrapassar o alcance dos conhecimentos empíricos. Surge, portanto, quando ele discute e supera, ao apresentar o objeto dapesquisa que desenvolve, as perspectivas teóricas, o empirismo e o apriorismo[1][1], que, no seu tempo, buscavam entender as categorias — conceitos gerais, universais e necessários, que se referem, entre outras concepções homogêneas, a tempo e espaço, causa, número, personalidade etc. As categorias são necessárias, na medida em que, por alguma espécie de autoridade, se impõem ao espírito sem serem...
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