haushushaush

Páginas: 46 (11298 palavras) Publicado: 16 de maio de 2014
Na primeira parte desta obra, consagrada aos pressupostos gnoseológicos das nossas análises sobre a verdade histórica, distinguimos três acepções do adjectivo «objectivo» empregado para qualificar o conhecimento. Lembremos essas acepções:

1) É «objectivo» o que vem do objecto, ou seja o que existe fora e independentemente do espirito que conhece; portanto, é «objectivo» o conhecimento quereflecte (numa acepção particular desta palavra) este objecto;

2) é «objectivo» o que é cognitivamente válido para todos os indivíduos;

3) é objectivo o que está isento de afectividade e, portanto, de parcialidade.

O adjectivo «subjectivo» designa respectivamente:

1) o que vem do sujeito;

2) o que não possui um valor cognitivo universal;

3) o que é emocionalmente colorido e, por estemotivo, parcial.

Comecemos pela primeira acepção da palavra «objectivo». O conhecimento é objectivo, dissemos nós, quando vem do objecto quando constitui um reflexo especifico dele. Para um materialista esta tese é banal; mas as complicações começam a manifestar-se, mesmo para um materialista, talvez mesmo sobretudo para um materialista (para o idealismo subjectivista, o problema não se põe),desde que se encare o papel do sujeito que conhece ou, noutros termos, o papel do factor subjectivo no conhecimento.

Ao apresentarmos os nossos pressupostos gnoseológicos, assinalámos o risco de uma interpretação mecanicista do processo do conhecimento, ou seja do caso em que se concebe o primeiro termo da relação sujeito-objecto como um elemento passivo. E, com efeito, ao longo da nossaanálise das determinações do conhecimento histórico, pudemos ver a que ponto uma tal concepção estava errada. O sujeito desempenha um papel activo no conhecimento histórico, e a objectividade desse conhecimento contém sempre uma dose de subjectividade. Senão, esse conhecimento seria a-humano ou sobre-humano.

Apesar do que sugere o qualificativo empregue, o conhecimento objectivo comporta sempreconteúdos que é impossível reduzir apenas ao objecto, mas que estão ligados à qualidade do sujeito dado, determinado historicamente (mais concretamente — socialmente). Se concebemos adequadamente o processo do conhecimento, a última verificação cai sob o senso comum, mas também, na perspectiva desta concepção, não há razão nem para «recearmos» o papel do sujeito, nem para nos encarniçarmos a eliminá-loartificialmente. De resto, como eliminá-lo, visto que não pode haver conhecimento sem sujeito que conhece; este deve necessariamente estar implicado no processo do conhecimento. O verdadeiro problema consiste em compreender o seu papel, porque é apenas nesta condição que se pode reagir eficazmente contra as deformações potenciais, disciplinar ,de certa maneira o factor subjectivo do conhecimento.Só este objectivo é real na nossa procura do conhecimento que qualificamos objectivo. Como o observa muito justamente H. M. Lynd no seu ensaio sobre a objectividade do conhecimento histórico, quanto melhor sabemos precisar o que o sujeito traz ao conhecimento do objecto, melhor nOS apercebemos do que esse objecto é na realidade.

«Quanto mais conscientes estamos da ordem que reside no nosso métodode observação, tanto mais estamos em condições de apresentar claramente qualquer ordem existente no mundo exterior. A precisão a que podemos pretender é acessível apenas na condição de tomar consciência do papel de observador apreendido como elemento do processo de observação: não abstraindo desse observador, mas incluindo-o no cálculo. Mesmo em fisica épreciso tomar em consideração o facto deque a coisa medida éalterada pelo instrumento de medida, e vice-versa. Não há maior obstáculo no caminho que leva á objectividade que a confusão da «subjectividade» com o facto de ter em conta a posição do observador. »

Paul Ricoeur desenvolve e concretiza esta ideia no seu livro Histoire et Vérité. Depois de ter analisado as formas principais do factor subjectivo no conhecimento histórico:...
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