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Páginas: 221 (55206 palavras) Publicado: 6 de abril de 2014
Inocência, de Visconde de Taunay

Fonte:
TAUNAY, Visconde de. Inocência. 19ª ed., São Paulo: Ática, 1991 (Bom Livro).

Texto proveniente de:
A Literatura Brasileira – O seu amigo na Internet.
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Inocência
Visconde de Taunay

I—O SERTÃO E O SERTANEJO
Todos vos bem sentis a ação secreta Da natureza em seu governo eterno, E de íntimas camadas subterrâneas. Da vida o indicio a superfície emerge.
(Goethe, Fausto, 2ª parte)
Então com passo tranqülo metia‑me eu por algum recanto da floresta, algumlugar deserto, onde nada me indicasse a mão do homem, me denunciasse a servidão e o domínio; asilo em que pudesse crer ter primeiro entrado, onde nenhum importuno viesse interpor‑se entre mim e a natureza.
(J. J. Rousseau, O Encanto da Solidão)
Corta extensa e quase despovoada zona da parte sul‑oriental da vastíssima província de Mato Grosso aestrada que da Vila de Sant'Ana do Paranaíba vai ter ao sitio abandonado de Camapuã. Desde aquela povoação, assente próximo ao vértice do ângulo em que confinam os territórios de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso até ao Rio Sucuriú, afluente do majestoso Paraná, isto é, no desenvolvimento de muitas dezenas de léguas, anda‑se comodamente, de habitação em habitação, mais ou menos chegadasumas às outras, rareiam, porem, depois as casas, mais e mais, e caminham‑se largas horas, dias inteiros sem se ver morada nem gente até ao retiro de João Pereira, guarda avançada daquelas solidões, homem chão e hospitaleiro, que acolhe com carinho o viajante desses alongados paramos, oferece‑lhe momentâneo agasalho e o provê da matalotagem precisa para alcançar os campos de Miranda e Pequiri, ou daVacaria e Nioac, no Baixo Paraguai.
Ali começa o sertão chamado bruto.
Pousos sucedem a pousos, e nenhum teto habitado ou em ruínas, nenhuma palhoça ou tapera dá abrigo ao caminhante contra a frialdade das noites, contra o temporal que ameaça, ou a chuva que está caindo. Por toda a parte, a calma da campina não arroteada; por toda a parte, a vegetação virgem, como quando aí surgiu pela vezprimeira.
A estrada que atravessa essas regiões incultas desenrola‑se à maneira de alvejante faixa, aberta que é na areia, elemento dominante na composição de todo aquele solo, fertilizado aliás por um sem‑número de límpidos e borbulhantes regatos, ribeirões e rios, cujos contingentes são outros tantos tributários do claro e fundo Paraná ou, na contravertente, do correntoso Paraguai.
Essa areia solta,e um tanto grossa, tem cor uniforme que reverbera com intensidade os raios do Sol, quando nela batem de chapa. Em alguns pontos é tão fofa e movediça que os animais das tropas viageiras arquejam de cansaço, ao vencerem aquele terreno incerto, que lhes foge de sob os cascos e onde se enterram até meia canela.
Freqüentes são também os desvios, que da estrada partem de um e outro lado eproporcionam, na mata adjacente, trilha mais firme, por ser menos pisada.
Se parece sempre igual o aspecto do caminho, em compensação mui variadas se mostram as paisagens em torno.
Ora e a perspectiva dos cerrados, não desses cerrados de arbustos raquíticos, enfezados e retorcidos de São Paulo e Minas Gerais, mas de garbosas e elevadas árvores que, se bem não tomem, todas, o corpo de que são capazes àbeira das águas correntes ou regadas pela linfa dos córregos, contudo ensombram com folhuda rama o terreno que lhes fica em derredor e mostram na casca lisa a força da seiva que as alimenta; ora são campos a perder de vista, cobertos de macega alta e alourada, ou de viridente e mimosa grama, toda salpicada de silvestres flores; ora sucessões de luxuriantes capões, tão regulares e simétricos em sua...
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