filosofia africana

Páginas: 60 (14777 palavras) Publicado: 18 de setembro de 2014
1

Filosofia Africana e desenvolvimento
(Reflexões preliminares)

Adelino Torres1

Homenagem
a Elikia M´Bokolo e a Ilídio do Amaral
e em memória de Alfredo Margarido

Introdução
Os problemas aqui tratados referem-se tanto a alguma filosofia que se faz em África,
como a aspectos do “desenvolvimento” económico, aqui entendido no sentido mais
lato.
Como bem observou Fabien EboussiBoulaga, dos Camarões, “o subdesenvolvimento
tecnológico resulta evidentemente de um subdesenvolvimento no plano do
conhecimento racional e científico”2.
Numa primeira parte serão discutidos alguns aspectos históricos da filosofia africana em
torno do livro fundador de Placide Tempels, La philosophie bantoue publicado em
1949 e que continua a ser objecto de debate entre filósofos africanos
Nasegunda parte, aplicando ideias expostas no ponto anterior, tentarei pôr em relevo
algumas ligações entre as ciências sociais, nomeadamente a filosofia e a economia que
se refere ao desenvolvimento propriamente dito, destacando a necessidade urgente da
sua convergência

*
1

ISEG da Universidade Técnica de Lisboa (ISEG) e Universidade Lusófona de Lisboa

2

Eboussi Boulaga, L´affaire dela philosophie africaine, 2011 : 15.

2

I - Metodologia dos conceitos
Antes de abordar o núcleo das ideias expostas mais adiante, é indispensável referir
algumas questões preliminares de terminologia que são parte integrante da metodologia
da análise.
Em primeiro lugar a terminologia dita racialista empregue por inúmeros autores que
tratam dos problemas africanos merece uma curtaapreciação.
Entre as questões preliminares que se levantam a este propósito é a de saber porque é
que se fala tão frequentemente de “filosofia negro-africana” e não, quando muito, de
“filosofia africana”?
Com efeito, esta linguagem era compreensível na fase inicial da luta pela independência
contra o colonialismo anterior ou posterior à 2ª guerra mundial. Hoje, porém, mais de
50 anos depois dasindependências e com mutações substanciais no tecido social em
muitas regiões africanas, certos conceitos têm uma ressonância algo insólita. Por
exemplo, na maioria dos países africanos podemos encontrar nos nossos dias – e não
apenas na África do Sul pós-apartheid - cidadãos de origem asiática ou europeia que não
sendo “negros”, não são menos cidadãos nem menos africanos por isso.
Emcontrapartida, também sabemos que há milhares de jovens negros nascidos na
Europa, cidadãos de países desse continente e que estão, porventura, mais identificados
com os problemas da da União Europeia que os afectam directamente do que com os
problemas africanos de que só têm uma ideia por vezes vaga. Neste último caso, se se
tratar, suponhamos, de um homem (ou mulher) que exerce a profissão defilósofo, será
que devemos classificá-lo(a) como um filósofo “negro-europeu” e não como um
filósofo europeu (que por acaso é negro)? Com efeito, o que é que tem a ver o conceito
fantasista e vazio de “raça” com as ideias e competências dos indivíduos? É evidente
que estas classificações têm pouco sentido, uma vez que o denominador comum não é,
como seria lógico, a nacionalidade, profissão oucompetência, mas a “raça”, o que
parece estranho e incongruente. Em Portugal, como noutros países europeus, não há
“portugueses negros” mas, à luz da Constituição, simplesmente “portugueses”, mesmo

3

se pode haver por vezes quem lhe acrescente um adjectivo inútil ou porventura malintencionado, o que é sempre redundante ou mesmo estúpido3
Os termos racialistas (não necessariamente “racistas” nasua intencionalidade, é certo)
são no mínimo pleonasmos com pouco sentido, a menos que a expressão “negroafricano”, para além de ser uma maneira de se exprimir rotineira, obsoleta e
involuntariamente mal pensada, assuma o propósito inconfessável de dar à “raça” um
lugar que se sobrepõe a qualquer outro conteúdo significante 4. Nessa eventualidade
estamos, no fundo, perante uma concepção...
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