Fichamento: IN: BAGNO, M. Dramática da Língua Portuguesa. Tradição gramatical, mídia exclusão social. São Paulo. Loyola, 2000.

Páginas: 14 (3383 palavras) Publicado: 19 de outubro de 2014
IN: BAGNO, M. Dramática da Língua Portuguesa. Tradição gramatical, mídia exclusão social. São Paulo. Loyola, 2000.
1- Gramática Tradicional e senso comum
1.1 Gramática tradicional, gramática normativa e preconceito linguístico
O preconceito linguístico manifesta (em suas diversas formas, nas distintas faces que assume) a ideologia cristalizada há séculos na Gramática Tradicional (GT) ematerializada, por assim dizer, no gênero literário conhecido como gramática normativo (GN). Faço a distinção entre Gramática Tradicional e gramática normativa usando uma metáfora simples e nada original: a GT é a “alma” de um “corpo” chamado gramática normativa. Com Descartes falaríamos de “espírito” (GT) e “matéria” (GN). Por isso as gramáticas normativas podem diferir, e diferem, uma das outras,apresentando mudanças ao logo do tempo, quando comparadas no nível do gênero literário, e também variações idiossincráticas, quando comparadas entre si como obras individuais. No entanto, o “espírito” que as move, a GT, é o mesmo. A GT, por consubstanciar uma ideologia (como o sentido de visão de mundo ou conjunto de ideias dominantes numa sociedade, imposto pelas classes sociais que detêm o poderpolítico e econômico), não tem autor, ao contrário das gramáticas normativas, às quais podemos nos referir como “gramática de Celso Cunha”, “a gramática de Rocha Lima”, “a gramática de Cegalla”etc.
Minha análise visa demonstrar que essa instrumentalização da GT como suporte do “discurso político e administrativo” não se interrompeu com o fim da Idade Média, permanecendo viva e forte até os dias dehoje, ao menos no que diz respeito à sociedade brasileira.
Antes de prosseguir, quero insistir na distinção entre o que é GT e o que são os usos que se faz dela, para que minha argumentação não corra o risco de parecer uma tentativa de demolição radical da GT. A Gramática Tradicional, não cabem dúvidas, é um patrimônio cultural do Ocidente, um monumento inestimável de saberes acumulados ao longode mais de dois milênios, um repositório das reflexões, investigações e especulações filosóficas acerca da linguagem feita por alguns dos mais brilhantes pensadores da história da humanidade.
Na percepção de Lyons (1968:18), existe uma continuidade na história de reflexão sobre a linguagem no Ocidente, que começa com os gregos antigos, passa pelos escolásticos medievais e prossegue hoje com oslinguistas e filósofos da linguagem:
Os verdadeiros continuadores dos gramáticos clássicos e escolásticos não são aqueles que buscam preservar intacto todo o arcabouço da gramática clássica, mas, antes, aqueles que empreendem a investigação livre e crítica sobre o papel e a natureza da linguagem dentro do contexto atual pensamento científico, e com o conhecimento mais extenso sobre as línguas e asculturas que se dispõem agora.
Nos devemos bater é contra os usos e abusos perpetrados por aqueles que, arrancando a Gramática Tradicional do lugar que legitimamente é o seu – o da reflexão filosófica, o de ferramenta de investigação dos processos cognitivos que permitem ao ser humano fazer uso da linguagem-, impuseram-lhe o papel de doutrina canônica, de conjunto de dogmas irrefutáveis, deverdades eternas. É desse papel que estarei falando ao empregar o termo Gramático Tradicional e ao tentar defini-la como ideologia.
1.2 – Gramática Tradicional: Doutrina, não ciência.
Estudando a história da filosofia, das ciências e das demais formas de saber, topa-se com um fato histórico surpreendente: a Gramática Tradicional- que ainda é, de longe, a máxima fonte de inspiração doutrinária para oensino da língua portuguesa (a expressão “ensino da língua portuguesa” equivale, para mim, ao ensino da norma-padrão. Como a norma-padrão não é língua, mas só um ideal abstrato de língua) no Brasil e para as atividades econômicas a ele associadas (indústria editorial, mídia e multimídia) – repousa até hoje em bases epistemológicas que remontam a uma fase da história do conhecimento humano...
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