Família escrava e trabalho

Páginas: 18 (4295 palavras) Publicado: 8 de novembro de 2012
6 Tempo

Família escrava e trabalho
Robert W. Slenes*
Sheila de Castro Faria **
Apesar de certas premissas básicas serem aceitas por um grupo numeroso de historiadores
atuais, a história da família escrava no Brasil vem suscitando inúmeras divergências de
interpretações. Foi com base nestas divergências que se montou uma sessão, no I I Encontro de História da UFF, intitulada “FamíliaEscrava e Trabalho”, composta pelos seguintes
pesquisadores: Robert Slenes, Manolo Florentino, José Roberto Góes, Luiz Carlos Soares, Sheila de Castro Faria e coordenada por Ronaldo Vainfas. Nas páginas que se seguem está, na íntegra, a intervenção de Robert Slenes, que a entregou por escrito ao coordenador da mesa, seguida de um balanço crítico dos debates então travados, redigido por Sheila deCastro Faria.

Robert W. Slenes

É importante lembrar, de início, o ponto de partida do debate nos últimos anos sobre a
família escrava. Nas décadas de 1950 e 1960, tanto a historiografia brasileira quanto a norteamericana formulavam em primeiro plano, nas discussões, a questão relativa ao caráter e às conseqüências da escravidão. No Brasil, Florestan Fernandes e Roger Bastide expressaram oconsenso sobre o assunto de forma mais clara. Por razões demográficas (o excesso de homens sobre mulheres no tráfico africano) e como resultado de uma política senhorial de (nas palavras de Fernandes) “tolher e solapar” todas as formas de solidariedade entre os cativos, a “família” escrava – não apenas a “linhagem”, mas também a família conjugal/nuclear, com o pai “presente” na vida dos filhos –praticamente inexistiu. “Perdidos uns para os outros”, sem laços sociais para recriar sua cultura e identidade, os escravos eram reduzidos a “condições anômicas de existência”. Como resultado (segundo Bastide), eles internalizavam as normas brancas, chegando subconscientemente a
identificar seu senhor como “pai”; mais sério ainda (Fernandes), eles não tinham condições de
participar do processo da“Revolução Burguesa” no Brasil como agentes sociais de relevo, como
fizeram os imigrantes e uma fração dos fazendeiros do oeste paulista. Finalmente (Fernandes), eles
não puderam enfrentar com sucesso a concorrência dos imigrantes, depois da abolição, por não
desfrutarem das instituições de ajuda mútua e dos valores favoráveis à mobilidade que a família
propiciava.
Fernandes e Bastide estavamsintonizados com a bibliografia internacional de sua época,
*

Professor do Departamento de História da UNICAMP.
Professora do Departamento de História da UFF.

**

Tempo, Vol. 3 - n° 6, Dezembro de 1998.

inclusive a norte-americana. O mesmo se pode dizer dos historiadores que começavam a questionar
suas conclusões sobre a família escrava a partir dos anos 1970. O S er escravo no Brasil deKatia Mattoso já reflete a mudança de paradigmas na história social iniciada no final da década de
1960. Mattoso desconfiava da idéia de que um grupo subalterno – mesmo que escravizado –
pudesse ser totalmente “domesticado”, psicológica e culturalmente, por seus dominadores; e não
dava à família conjugal a importância exagerada, no que diz respeito à socialização das crianças, que
asociologia norte-americana lhe concedia alguns anos antes. (Ver, por exemplo, Talcott Parsons e
Robert Bates, F amily and Interaction Process , refletindo as mesmas pressuposições que a
bibliografia da época sobre as “conseqüências” sociais da destruição da família conjugal escrava).
Se Mattoso ainda não questionava a base empírica da visão “tradicional” da família cativa, ela já
percebia que osafricanos e seus descendentes podiam construir outras solidariedades significativas,
para além do parentesco, para orientar suas vidas.
Os estudos subseqüentes, contudo, mudaram drasticamente o quadro empírico referente à
família escrava. Os trabalhos demográficos têm focalizado especialmente o Oeste paulista no século
XIX – exatamente a região das p lantations ( o “hinterland” da cidade de São...
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