Entrevista jornalística confissão e as neoconfissões na mídia brasileira

Páginas: 20 (4910 palavras) Publicado: 20 de maio de 2012
edição 10 | ano 5 | julho-dezembro 2011

Entrevista jornalística confissão e as neoconfissões na mídia brasileira
Beatriz Marocco1

Resumo: Este texto focaliza a entrevista como uma prática jornalística confessional. Tal objeto configura um percurso epistemológico que associa o pensamento foucaultiano sobre a confissão à “neoconfissão”, assim como essa foi descrita por E. Morin (2000). Noâmbito discursivo aparecem os papéis e as funções da dupla jornalista/que interroga e fonte/que confessa, como se a fonte estivesse diante de uma autoridade investida para tal fim. Três entrevistas, que formam um pequeno corpus, selecionado a partir do acompanhamento diário de diferentes mídias, provocaram insights úteis, que apresentamos neste artigo, para a constituição de uma tipologia que vem aoencontro dessa relação e nos permite avançar em direção a um rompimento definitivo com o ritual da confissão nos novos ambientes digitais. Palavras-chave: entrevista, confissão, neoconfissão, jornalismo, verdade.

Abstract: This article focuses on the interview as a journalistic practice of confession. Such object constitutes an epistemological route that approaches the foucaultian conception ofconfession (Foucault, 1998) to the “neo-confession” described by E. Morin (2000). On the discursive scope they appear the roles and functions of the journalist/ who questions and the source/who confesses, as if during the interview the source was face-to-face with an authority empowered to this objective. Three interviews, which formed the little corpus, have been selected in different media andmight provoke useful insights that resulted a typology of the relationship journalist/source and can advance to a definitive rupture with the ritual of confession inside the new digital environment. Keywords: interview, confession, neo-confession, journalism, truth.

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ARTIGOS
edição 10 | ano 5 | julho-dezembro 2011

Quando o jornalismo brasileiro, por volta do século XIX, deixou de sero “campo de batalha de políticos, partidos, movimentos sociais, sindicatos e agremiações”, que queriam publicar suas posições e entrar na “quermesse de opiniões”, os jornais se aproximaram das fontes de informação para dar consistência discursiva à imagem de público imparcial que essas poderiam representar (MARCONDES FILHO, 2000, p. 110). A fala testemunhal, as versões de fontes conflitantes e aprodução de efeitos de real e de impessoalidade narrativa, entre outras estratégias, sinalizaram a emergência de um campo de tensões no âmbito narrativo. Nos jornais, o narrador não deixaria mais a sua marca, como a mão do oleiro deixava na argila do vaso (BENJAMIN, 1996, p. 205), nem poderia esquecer-se de flexionar os verbos dicendi à sombra das fontes de informação, grandes marcadores doimpério da entrevista e da imparcialidade. Naquele momento, descolar-se das administrações públicas, dos partidos políticos e da literatura, desvinculando o comportamento do jornalista da opinião e da ficção, dá certa autonomia ao jornalismo, na medida em que o que emana da fonte é concebido a priori como o relato de uma informação da esfera do público. Nesse novo regime discursivo, característico doparadigma da “objetividade”, o jornalista desaparecerá como sujeito que fala de si, de sua própria experiência, e que dá conselhos, deixando esse vazio, que havia preenchido com outros parceiros até o início do século passado, para a voz das fontes de informação (BENJAMIN, 1996, p. 202; MARCONDES FILHO, 2000, p. 110-111). A produção do verdadeiro ocupa o centro desse novo regime discursivo que soldao jornalista à fonte. Nesse sentido, a colocação do testemunho da fonte em discurso e a associação dessas vozes que emanam do público em geral à imparcialidade que conferem ao jornalismo são duas peças de um mesmo dispositivo que abriga a enunciação verídica na entrevista jornalística. Nela, jornalista e fonte vivem uma relação assimétrica no âmbito das práticas: o primeiro não é simplesmente...
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