Educação

Páginas: 19 (4645 palavras) Publicado: 23 de março de 2013
A AUTONOMIA PERDIDA: a proletarização dos professores*

(Capítulo 1 do livro “A autonomia de professores”, de José Contreras Domingo. São Paulo: Cortez, 2002, pp. 31-51)

José Contreras Domingo

Uma das idéias mais difundidas na atualidade com respeito aos professores e, ao mesmo tempo, uma das mais polêmicas é sua condição de profissional. Seja como expressão de uma aspiração, comodescrição das características do ofício de ensinar ou como discussão sobre as peculiaridades ou limitações com que tal condição se dá nos docentes, o tema do profissionalismo parece bastante instalado no dis¬curso teórico, bem como nas expressões dos próprios docentes sobre seu trabalho. Uma das razões que torna esse assunto problemático é que a palavra "profissional", e suas derivações, embora emprincípio pareçam apenas referir-se às características e qualidades da prática docente, não são sequer expressões neutras. Escondem em seu bojo opções e visões do mundo, abrigando imagens que normalmente são vividas como positivas e desejáveis e que é necessário desvelar se qui-sermos fazer uma análise que vá além das primeiras impressões. O tema do profissionalismo — como todos os temas em educação —está longe de ser ingênuo ou desprovido de interesses e agendas mais ou menos escusas.
O problema que me interessa explorar neste trabalho é, concretamente, o a autonomia profissional enquanto qualidade do ofício do¬cente. Porém, uma das características do mesmo é que ele está afetado ideológica e praticamente pela discussão acerca da presença ou da conveniência de determinadas qualidades, entreelas a da própria autonomia e do que por ela se possa entender.
O ensino, enquanto um ofício, não pode ser definido só de modo descritivo, ou seja, pelo que encontramos na prática real dos professo¬res em sala de aula, já que a docência — novamente, como tudo em educação — define-se também por suas aspirações e não só por sua materialidade. Tampouco, porém, fica bem identificá-lo como um con¬juntode aspirações e expressões de grande carga simbólica que per¬dem o sentido das condições reais de sua prática. Expressões assim acabam servindo apenas para dotar de cobertura ideológica todas aquelas posições que tão somente pretendem ocultar tanto a realida¬de como a própria função encobridora que exercem semelhantes dis¬cursos (Lerena, 1983). Por isso, se quisermos entender as característi¬cas equalidades do ofício de ensinar temos de discutir tudo o que se diz sobre ele ou o que dele se espera. Mas, também, o que é e o que não deveria ser; o que se propõe mas que se torna, ao menos, discutível.
Esta é a razão pela qual, se quisermos abordar o tema da autono¬mia profissional, precisamos discutir os aspectos contraditórios e ambíguos que encerra. E em especial aqueles relacionados com aprópria idéia de profissional e a retórica do profissionalismo no ensino, que inevitavelmente encontramos associada a aspiração à autonomia. Desta forma, espero que possamos entender melhor tanto as armadi¬lhas que se escondem no caminho como o que de valioso nos possa revelar. A complexidade desta questão obriga a manter o debate en¬tre o que é e não é, e entre o que se ganha e se perde nesseconfronto tanto ideológico como prático. Provavelmente, a melhor forma de resolver o problema seja tentar resgatar algo valioso enquanto se mantém aberto o debate. Minha aspiração nesta discussão é, portan¬to, conseguir manter o confronto ideológico, com o objetivo de res¬gatar uma posição comprometida com determinados valores para a prática docente.
Talvez a melhor forma seja começando pordiscutir o problema das qualidades profissionais do ensino a partir de sua negação, isto é, a partir do que, como ocupação trabalhista, se supõe ausente ou per¬dido. O tema da proletarização de professores, ao qual nos dedicare¬mos neste primeiro capítulo, nos oferece uma perspectiva adequada para essa preocupação. A tese básica da proletarização de professores é que o trabalho docente sofreu uma...
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