Eca De Queiros Contos

Páginas: 280 (69818 palavras) Publicado: 25 de março de 2015
Contos, de Eça de Queirós
Fonte:
QUEIRÓS, Eça de. Contos. Porto : Lello & Irmão, [19-?].
Texto proveniente de:
Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado por:
Antonio de Padua Danesi - Guaxupé/MG
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CONTOS
Eça de Queirós
Singularidades de umarapariga loura
I
COMEÇOU por me dizer que o seu caso era simples - e que se chamava Macário...
Devo contar que conheci este homem numa estalagem do Minho. Era alto e grosso: tinha uma calva
larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe eriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em
roda engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e retidão - por trás dos seusóculos redondos com ares de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo saliente e resoluto. Trazia uma gravata
de cetim negro apertada por trás com uma fivela; um casaco comprido cor de pinhão, com as mangas estreitas
e justas e canhões de veludilho. E pela longa abertura do seu colete de seda, onde reluzia um grilhão antigo,
saíam as pregas moles duma camisa bordada.
Era isto em setembro: já asnoites vinham mais cedo, com uma friagem fina e seca e uma escuridão
aparatosa. Eu tinha descido da diligência, fatigado, esfomeado, tiritando num cobrejão de listas escarlates.
Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram oito horas da noite. Os céus
estavam pesados e sujos. E, ou fosse um certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar monótono da
diligência, ou fosse adebilidade nervosa da fadiga, ou a influência da paisagem escarpada e árida, sobre o
côncavo silêncio noturno, ou a opressão da eletricidade, que enchia as alturas - o fato é que eu - que sou
naturalmente positivo e realista - tinha vindo tiranizado pela imaginação e pelas quimeras. Existe, no fundo de
cada um de nós, é certo - tão friamente educados que sejamos - um resto de misticismo; e basta àsvezes uma
paisagem soturna, o velho muro dum cemitério, um ermo ascético, as emolientes brancuras dum luar, para
que esse fundo místico suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a idéia, e fique assim o
mais matemático ou o mais crítico - tão triste, tão visionário, tão idealista - como um velho monge poeta. A
mim, o que me lançara na quimera e no sonho fora o aspecto domosteiro de Rastelo, que eu tinha visto, à
claridade suave e outonal da tarde, na sua doce colina. Então, enquanto anoitecia, a diligência rolava
continuamente ao trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e o cocheiro, com o capuz do gabão
enterrado na cabeça, ruminava o seu cachimbo - eu pus-me elegìacamente, ridìculamente, a considerar a
esterilidade da vida: e desejava ser um monge, estar numconvento, tranqüilo, entre arvoredos ou na
murmurosa concavidade dum vale, e enquanto a água da cerca canta sonoramente nas bacias de pedra, ler a
Imitação, e ouvindo os rouxinóis nos loureirais, ter saudades do céu. - Não se pode ser mais estúpido. Mas eu
estava assim, e atribuo a esta disposição visionária a falta de espírito - e a sensação - que me fez a história

daquele homem dos canhões develudilho.
A minha curiosidade começou à ceia, quando eu desfazia o peito duma galinha afogada em arroz
branco, com fatias escarlates de paio - e a criada, uma gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no
copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada. O homem estava defronte de mim, comendo
tranquilamente a sua geléia: perguntei-lhe, com a boca cheia, o meu guardanapo de linho...
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