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Páginas: 10 (2256 palavras) Publicado: 2 de novembro de 2014
DO MERCADO.

DAS UTOPIAS

Design e artesanato:
relações delicadas
Ethel Leon
“Por isso o que os dedos sempre souberam fazer
de melhor foi precisamente revelar o oculto. O que
no cérebro possa ser percebido como
conhecimento infuso, mágico ou sobrenatural,
seja o que for que signifiquem sobrenatural,
mágico e infuso, foram os dedos e os seus
pequenos cérebros que lho ensinaram. Paraque o
cérebro da cabeça soubesse o que era a pedra, foi
preciso primeiro que os dedos a tocassem, lhe
sentissem a aspereza, o peso e a densidade, foi
preciso que se ferissem nela. Só muito tempo
depois o cérebro compreendeu que daquele
pedaço de rocha se poderia fazer uma coisa a que
chamaria faca e uma coisa a que chamaria ídolo.”
José Saramago, A caverna

Cada vez mais abrem-se lojas deartesanato chique
nas grandes cidades. Comércio justo e ação
comunitária são algumas das expressões que
descrevem artefatos locais, muitas vezes turbinadas
por intervenções de designers. Como tem se dado
essa relação entre designers e artesãos no Brasil?
Para responder a essa pergunta, é importante
entender o que é artesanato nos dias de hoje.
É a produção sobrevivente dos hippies debrinquinhos à indiana vendidos em praças ou perto
de escolas e estações de metrô? São os potes de
barro de Maragogipinho na Bahia, feitos para
turistas? É o trabalho de refinado morador de bairro
elegante que trabalha com peças esculpidas em
madeira? Ou ainda é a forma de produzir vinculada
essencialmente a períodos pré-capitalistas?
A palavra “artesanato” designa tudo isso e mais
ainda. Àsvezes confundida com o fazer manual, é
atribuída àqueles que aprendem rudimentos de uma
profissão “simples” como a marcenaria. Sim,
programas oficiais de artesanato brasileiro
consideram artesãos ex-presidiários que tiveram
aulas com marceneiros ou donas de casa pobres
que foram reunidas num grupo de costura e se
exercitaram no uso da agulha e da linha. No Brasil,
o saber artesão seconfunde com estratégia de
sobrevivência, muitas vezes rudimentar. É o préartesanato de que falava a arquiteta Lina Bo Bardi.

Esta é a maior dificuldade de um programa de
artesanato e design: conceituar o alcance e os
objetivos do que se deve considerar artesanato. Muitos
diriam que no design é a mesma coisa; “designer” hoje
é uma palavra que acoberta cem atribuições e ofícios.
Juntem-se os doise a confusão está feita.
Só que essa confusão vem sendo o escoadouro de
muitos milhões de reais, empregados em programas
como o Comunidade Solidária – capitaneado pela
ex-primeira dama Ruth Cardoso – e pelo Sebrae,
além de compreender um grande número de
entidades não-governamentais do chamado terceiro
setor. Muitas dessas iniciativas conseguem atingir
seus objetivos, dentre os quais omais importante é
gerar renda para a população pobre. O retorno
financeiro imediato e o interesse que as pessoas
envolvidas demonstram em descobrir novas técnicas
e inventar produtos, e a troca de saberes entre
indivíduos com formação acadêmica ou artística (os
designers) e aqueles que, eventualmente, detêm um
saber centenário ou uma habilidade criativa recémaprendida costumam ser muitoproveitosos, para
ambos os lados.
O primeiro sentido da atuação do designer junto a
artesãos é a geração imediata de renda. No Brasil,
como em tantos países, muitos grupos sociais
estão à margem da economia formal e praticam
ofícios cujos produtos não têm mais lugar. É o caso
revista D’ART

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DO MERCADO.

DAS UTOPIAS

das rendeiras produtoras de paninhos... que poucos
usam. Mas quepodem ter como clientes os
estilistas que de várias maneiras incorporam rendas
a suas criações. Esse é o objetivo geral dos
programas oficiais e oficiosos de artesanato no
Brasil e em muitos outros países: aproximar o fazer
das pessoas a atividades econômicas rentáveis
como a moda e o turismo. Realizados, esses novos
produtos se encontram lado a lado com outros
criados pela classe média,...
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