Descartes e Benjamin

Páginas: 18 (4445 palavras) Publicado: 13 de novembro de 2014
bibliografia

SíNTESK N O V A FASK
V. 21 N. 64(1994):125-131

M A T O S , Olgária C . Feres, O
iluminismo
visionário:
Benjamin,
leitor de
Descartes
c Kant,
S ã o P a u l o , B r a s i l i e n s e , 1993,
184pp., I S B N 85-11-12066-1
O pensamento de Walter Benjamin
é certamente uma das fontes mais preciosas para se c o m p r e e n d e r os
descaminhos do homem ocidentalcontemporâneo em sua acidentada experiência histórica. A própria situação do
autor — vivendo entre a filosofia e a
crítica da cultura, entre o materialismo
histórico e a teíílogia, fugindo do nazismo e indo ao encontro da própria morte — nos dá u m exemplo claro de u m
intelectual deslocado, ante certas estruturas estabelecidas, numa Alemanha
entre guerras assolada pela inflação,
marcada pela derrotana primeira grande guerra e cenário das práticas políticas de uma esquerda titubeante.
Mas a produção intelectual de Benjamin só muito recentemente tem sido
objeto de estudo no Brasil e não menos
recente é a tradução de seus textos mais
significativos. Neste sentido, este livro
de Olgária Matos torna-se mais u m elemento importante na escassa bibliografia sobre o autor em nosso país. O livroé composto de quatro ensaios e nos
mostra, dentre outras coisas, o modelo
de razão com o qual Benjamin trabalhava e as suas tensas relações com o
projeto iluminista de razão que, fugindo dos erros dos sentidos, pretendia ter
acesso à verdade a partir de idéias claras e distintas. Como bem demonstra
Olgária Matos, Descartes é o grande
artífice desse projeto que se tornou u m
dos sustentáculosda nossa modernidade.

Mas não seriam estes sustentáculos
meras ilusões? O u seja, no que se refere
à razão das luzes, não teria ela deixado
de iluminar certas experiências do homem que não seriam passíveis de compreensão pelo logoá que busca o claro e
o distinto? Não teria a nossa modernidade de acertar contas com a sua ratio?
Percebe-se, com a leitura deste livro,
como estas questõesestão presentes na
reflexão dc Walter Benjamin. Se é verdade que hoje elas ocupam u m espaço
obrigatório em vários textos de filosofia, é não menos verdade que o tratamento que Benjamin dispensou a elas
traz a marca da originalidade.
O modelo de razão construído em
nossa modernidade não parte necessariamente do princípio de que o mundo
tem uma ordem preestabelecida. Como
nos mostra OlgáriaMatos, o próprio
Descartes não deixa de reconhecer a
desordem do m u n d o . A estratégia cartesiana, e podemos dizer moderna, foi
negar a esta desordem o estatuto de
uma realidade efetiva, reduzindo-a à
mera aparência. Esta atitude de negação, segundo Descartes, não é possível
para o h o m e m que não possui u m
método regulador do seu olhar sobre a
realidade. E preciso, então, afastar-sede
uma tradição contaminada com os enganos que afetam o senso comum e
impedem o homem de atingir sua maioridade intelectual.
Já em Benjamin, segundo Olgária
Matos, não teríamos a busca de u m
ptinto fixo a partir do qual se pudesse
ordenar a realidade. Atento à trajetória
do homem que nasce na idade moder-

Síntese Nova Fase, Belo Horizonte, v. 21, n. 64, 1994

\ 125

na, o pensadoralemão compreende a
experiência deste como u m jogo — entre a permanência e o deslocamento —
que traz a marca do inacabado. Benjam i n tenta discutir justamente esta d i f i culdade que o homem moderno tem de
v i v e r o m u t á v e l , o passageiro, o
intocável. Esta forma de pensar permite a Ek?njamin ler a história como u m
leque de possibilidades, inscritas no
passado, passíveis dereatualização.
Evita-se, assim, uma concepção de história no qual os acontecimentos se adicionam uns aos outros n u m imaginário
fio do t e m p o . Na concepção benjaminiana, cabe ao historiador resgatar do
passado as esperanças que foram oprimidas, mas que continuam pulsando à
espera de libertação.
Nada mais contrário a esta concepção que Benjamin tem da história do
que a apí)Iogia do...
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