cultura na infancia

Páginas: 28 (6910 palavras) Publicado: 11 de outubro de 2014
IMAGINÁRIO E CULTURAS DA INFÂNCIA*

Manuel Jacinto Sarmento
(Instituto de Estudos da Criança. Universidade do Minho)

Jogos na guerra1
Uma imagem de guerra, extraída num campo de refugiados albaneses no Kosovo, mostra
duas crianças brincando com uma boneca Barbie, perante o olhar entre o apreensivo, o
desolado e o fatalisticamente resignado dos adultos que com elas partilham as tendas decampanha dispostas para os albergar.
Não é apenas a boneca Barbie que aparece neste contexto de incerteza e de dor
insolitamente exposta, na sua arrogância loira oxigenada perante o infortúnio colectivo.
Símbolo maior da indústria cultural fornecedora do mercado infantil de jogos e brinquedos,
a boneca Barbie é talvez menos inesperada no processo de globalização dos dispositivos de
jogo enos produtos de consumo lúdico das crianças do que o próprio acto de brincar das
crianças, no momento em que tudo falta: a casa, a escola, um país para viver, talvez até
uma família, a confiança num futuro vivível, a certeza – mesmo se precária -

da

sobrevivência.
No entanto, o que relatos e estudos das crianças da guerra nos contam é essa forma de
conseguir criar um mundo outro, nascondições da mais dura adversidade, através do jogo
e da ficção de uma existência onde até o horror aparece transmudado em projecção
imaginária de uma realidade alternativa. Pedro Rosa Mendes conta no livro “a Baía dos
Tigres” que viu uma criança entre as ruínas da cidade do Bié, em Angola, jogando futebol,
*

Este texto foi produzido no âmbito das actividades do Projecto “As Marcas dosTempos: a
Interculturalidade nas Culturas da infância”, Projecto POCTI/CED/49186/2002 , financiado pela Fundação
para a Ciência e a Tecnologia.
1
A Conferência em que teve lugar a apresentação deste texto ocorreu nos primeiros dias da guerra do Iraque,
pelo que a referência às crianças e aos jogos na guerra se assumiu numa atitude de demarcação e denúncia do
belicismo associado à invasãoanglo-americana daquele país.
1

indiferente à desolação à sua volta. O esférico com que se entretinha - imaginando-se o
Eusébio ou o Pelé da época, como qualquer criança de qualquer outra parte do mundo era, à falta de melhor, os restos de uma caveira humana: “Não é por maldade. O crânio
estava disponível, perto e seco. Tu e eu conhecemos as balizas da humanidade: crânios
enterram-se, bolas sãoredondas. [À criança] ninguém deu oportunidade para tanto.”
(Mendes, 1999:386).
O jogo da criança do Bié tem o mesmo significado do de qualquer outra criança que, em
paz, brinca à guerra e até já aprendeu, a golpes de joystick, o que é um míssil Patriot ou um
B-52 carregado de bombas de implosão...
Entre as crianças que brincam com uma Barbie, ou que chutam um crânio humano, ou que
empunhamuma Kalashnikov de plástico, ou que jogam ao berlinde, ou lançam o peão, ou
brincam às casinhas, ou se divertem na consola ou no écran do computador há todo um
mundo de diferenças: de condição de social, de contexto, de valores, de referências
simbólicas, de expectativas e possibilidades. Mas há também um elemento comum: a
experiência das situações mais extremas através do jogo e daconstrução imaginária de
contextos de vida.
O imaginário infantil constitui uma das mais estudadas características das formas
específicas de relação das crianças com o mundo. A investigação tem sido dominada pelas
correntes teóricas da Psicologia. As perspectivas predominantes são as psicanalíticas e as
construtivistas. Para Freud, o imaginário infantil corresponde à expressão do princípio do
desejosobre o princípio da realidade, sendo o jogo simbólico uma expressão do
inconsciente, para além da formação da censura. Para Piaget, o jogo simbólico é a
expressão do pensamento autístico das crianças, progressivamente eliminado pelo processo
de desenvolvimento e construção do pensamento racional. Apesar das diferenças essenciais
entre as diversas orientações, sedimentadas na história da...
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