CULPA E ANG STIA

Páginas: 12 (2871 palavras) Publicado: 1 de junho de 2015
CULPA E ANGÚSTIA: ALGUMAS NOTAS SOBRE A OBRA DE FREUD 
Doris Rinaldi
 
 
       A noção de culpa tem grande importância na obra freudiana. Desde as cartas a Fliess, quando menciona o remorso que sentiu após a morte do irmão poucos meses depois de nascido (1897), dos estudos sobre a neurose obsessiva, com a análise do Homem dos Ratos (1909), ao "O mal-estar na cultura"(1930), aparece em Freud aidéia de uma onipresença da culpa, que se manifesta de múltiplas formas e que é fundamentalmente inexpiável. Neste último texto, Freud destaca o sentimento de culpa como o mais importante problema no desenvolvimento da civilização, traçando uma verdadeira genealogia da culpa, ao demonstrar as diversas etapas de sua constituição, da angústia social ao sentimento inconsciente de culpa. Nele propõeuma articulação entre culpa e angústia, afirmando que "o sentimento de culpa nada mais é do que uma variedade topográfica da angústia"((1930)1976:159). É esta relação que procuramos explorar neste trabalho, no sentido de compreender, em termos da estrutura do desejo, o que está em jogo na culpa.
Se inicialmente o que chamou a atenção de Freud para a questão da culpa foram os sintomas neuróticos, é adesproporção que observa entre a culpa e as ações cometidas, como nos casos de "criminosos em conseqüência do sentimento de culpa", que faz com que vá buscar fora dos limites estritos de seu campo as origens dessa culpa que supõe universal, nas origens da humanidade, na origem da cultura. Em "Reflexões para os tempos de guerra e morte"(1915), ele se refere ao "obscuro sentimento de culpa a que ahumanidade tem estado sujeita desde os tempos pré-históricos e que em algumas religiões foi condensado na doutrina da culpa primal, ou pecado original" ((1915)1976:331), onde reconhece algo de extremamente importante, que não pode ser desprezado.
Em "Totem e tabu" (1913) aborda esta questão através de um mito, em que o advento da cultura é fruto de uma violência primordial. O nosso pecado originalé um crime, o parricídio - "ato memorável que foi o começo de tantas coisas: da organização social, das restrições morais e da religião"((1913)1976:168) – onde a culpa encontra sua origem no retorno do amor sob a forma do remorso. O amor está, assim, na origem da consciência moral, acompanhado da fatal inevitabilidade do sentimento de culpa. Para Freud, isto se deve à ambivalência emocional emrelação ao pai, onde coexistem duas correntes: a corrente agressiva que se manifesta através do parricídio, e a corrente afetuosa, que surge com o remorso. Amor e ódio estão assim conjugados na fundação do laço social, ou como dirá mais tarde, a sociedade é constituída a partir do conflito pulsional onde se defrontam pulsões de vida e pulsões de morte.
No campo da clínica comum, ao identificar aforça do sentimento de culpa nas contradições e inibições da neurose obsessiva, na autodepreciação melancólica, na resistência terapêutica negativa, no recurso à conduta criminosa pela necessidade de punição, ele reafirma que tudo tem sua origem na relação ambivalente com o pai. No Complexo de Édipo, assim, estão condensados os dois grandes crimes humanos – o parricídio e o incesto - fonte deste"obscuro sentimento de culpa" da humanidade, onde a ontogênese repete a filogênese. Há, assim, para Freud, uma herança da culpa.
Ao nos debruçarmos sobre estes e outros textos freudianos que abordam o tema, chama a atenção o fato de diversas vezes Freud qualificar o sentimento de culpa como "obscuro", adjetivo que acompanha o seu caráter primário, e que posteriormente vai ser definido como"inconsciente". Se o sentimento de culpa encontra sua forma mais elevada a partir da delimitação da noção de supereu, como instância crítica, na tensão entre eu e supereu, Freud deixa claro que ele é anterior ao supereu, anterior à consciência. Parece haver aí algo de primitivo e inconquistável, enigmático, que surpreende Freud na clínica, e o leva a buscar na forma mítica, seja em "Totem e tabu", seja no...
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