Crack, mídia e perfieria

Páginas: 23 (5676 palavras) Publicado: 12 de abril de 2012
Crack, mídia e periferia: uma representação social das “classes perigosas”.


Introdução
No Brasil, as duas últimas décadas têm se caracterizado por uma sensível deterioração da capacidade do poder público em controlar a criminalidade e a violência.O diagnóstico da situação aponta para uma nova conformação da criminalidade na sociedade brasileira. Há um maior grau de violência associada aos crimes urbanos, bem como se identifica a solidificação de atividades criminosas, cada vez mais organizadas e pautadas por uma racionalidade tipicamente empresarial. São os casos do roubo de cargas, do contrabando de armas e de mercadorias e do tráficode drogas. Este último e os problemas sociais, políticos, econômicos e de segurança a ele associados mobilizam parcela significativa da sociedade na direção da formulação e da constituição de alternativas que visam à amenização e à solução de tais problemas.
Em meados de 2009, uma série de reportagens do Jornal do Commercio, intitulada “A epidemia do tráfico”, abordou o assunto com frases como “Acracolândia é aqui”, “Um tiro rápido, barato e mortal”, “Eu já tirei tudo de casa. Alguém precisa me deter”, “Classe média refém do crack”, etc. Tais abordagens pareciam tratar o fenômeno em questão como algo patológico que vem se alastrando em Pernambuco, podendo criar nos leitores um grande medo desta espécie de “epidemia”. As análises dessas notícias chamadas de especiais as quais traziam umolhar mais aprofundado do tema, inclusive com histórias de personagens reais, mostravam a intenção de chamar a atenção para o “problema”, porém poderiam reforçar preconceitos e entendimentos destorcidos sobre o crack em Pernambuco.
Assim, o objetivo deste trabalho é compreender a representação midiática sobre o crack como metáfora da periferia de Recife/PE, analisando as matérias veiculadaspelo Jornal do Commercio no ano de 2009, bem como os saberes médico e dos policiais sobre os sujeitos associados a esta droga. Entende-se como metáfora da periferia a percepção de que as construções discursivas sobre o crack dizem muito mais a respeito dos grupos sociais associados a esta droga, do que da substância em si. Ou seja, a proposição que se defende é que quando se fala de crack se fala naverdade daqueles que são relacionados a ele.

2. Considerações metodológicas.
Realizou-se inicialmente uma análise de natureza de conteúdo, com o intuito de evidenciar as representações dos sujeitos associados ao crack. Para tanto, buscou-se perceber a construção de rótulos, estigmas e estereótipos envolvendo os personagens das matérias jornalísticas. O segundo eixo compreendeu uma análise denatureza “explicativa”, com o intuito de identificar as principais estratégias para construção do processo de sujeição criminal (Misse, 1999). Com relação a esses fatores, partimos do suposto de que existe uma “demonização” do crack (Reinarman & Levine, 1997), relacionando atributos negativos provenientes da droga com a periferia, especialmente no que se refere às representações e as diferentesconcepções sobre as “classes perigosas” (Guimarães, 2008) nos trabalhos das polícias militar e civil, inclusive emergidas no saber médico.
Foram analisadas as matérias das apreensões de crack e os cadernos especiais focando na interpretação de tais discursos, tendo em vista que o não dito pode ser tão relevante quanto o dito para a nossa análise. Considerou-se relevante também ter acesso aoutros dados qualitativos disponibilizados pelas falas de delegados da Polícia Civil e Polícia Federal, e de psiquiatras para se ter uma percepção geral dos saberes legitimadores, pronunciados no processo de incriminação dos “marginalizados periféricos”. Acredita-se que a combinação dessas duas tarefas proporcionará uma percepção real da representação social da periferia.
As coletas dos artigos...
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