Corpos heteronormatividade e performances híbridas

Páginas: 38 (9375 palavras) Publicado: 6 de novembro de 2013
Psicologia & Sociedade; 24 (1), 197-207, 2012

CORPOS, HETERONORMATIVIDADE E PERFORMANCES HÍBRIDAS
BODIES, HETERONORMATIVITY AND HYBRID PERFORMANCES
Ricardo Pimentel Méllo
Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Brasil

RESUMO
Maneiras de viver, muitas vezes, são naturalizadas como se houvesse uma forma predeterminada de corpo
feminino ou masculino, nos remetendo vivência de nossoscorpos como inertes, em oposição à alma imortal e
ativa. Os corpos são qualificados como materialidades biológicas, sendo experimentados como provas de nossa
sexualidade e da existência de gêneros e aqueles que não se acomodam a essas normalizações são tratados como
“abjetos”. O movimento feminista se opôs as pressupostas diferenças biológicas entre homens e mulheres utilizando o conceito degênero, mas o sexo permaneceu como categoria básica e o corpo como matéria inerte. Como
não sucumbir a perspectivas binárias e dicotômicas? Como fazer de nossas vidas experimentações que ousem
transbordar as normalizações histórico-culturais? A partir de estudos queer propõem-se corpos como vibráteis,
estranhos, formados e dobrados em redes, uma instigação de resistência à ação de isolamento do quese considera
abjeto como consequência da biopolítica.
Palavras-chave: estudos queer; performatividade; corpos vibráteis; relações de gênero.
ABSTRACT
Ways of life often are naturalized as if there was a predetermined shape of the female and male body. The bodies
are classified as a biological materiality, which is experienced as evidence of the existence of our sexuality and
gender. Thus,bodies that do not accommodate to these norms are treated as abjects. To counteract this biological
assumption, the feminist movement began to use the concept of gender in order to strip of the supposedly biological
differences between male and female. However, the sexual organ is still the basic category for differentiation and
the body is still understood as an inert materialization. How not tosuccumb to binary perspectives? How to live
a life that dares to overflow the historical and cultural commonalities? Taking the queer studies’ perspectives, it
is put forward an idea of bodies as vibratile, strange, freakish devices made and molded in social webs; this is a
proposal of biopolitical resistance to the isolation imposed on the abjects.
Keywords: queer studies; performativity;vibratile bodies; gender relations.

A constituição do olhar clínico e o imperativo
médico: a naturalização dos sexos
O corpo, especialmente sob influência da cultura
judaico-cristã, muitas vezes designa o inerte, o que se
opõe a alma, esta sim viva, perene imortal, ativa. Como
afirma Fontes (2006, s.p.) “a dicotomia entre animado e
inanimado ... permitiu a palavra corpus passar a indicar osobjetos materiais – isto é, visíveis”. Dessa forma, corpo
tem uma materialidade sensível que, por essa característica, passa a ser definido como natural e biológico, como
se fosse autodefinido e independente de práticas culturais,
ou seja, como se os corpos sempre fossem os mesmos em
função de uma composição material essencial.
Na Idade Média, via-se uma diferenciação dos
corpos mais do queda sexualidade, esta explicada
pelo calor vital, como mostram os estudos de Thomas

Laqueur (2001). Só havia como modelo único o corpo
masculino, sem a padronização de uma determinada
terminologia para a genitália feminina. A mulher não
tinha um órgão sexual específico. Seu órgão sexual
apenas não havia se desenvolvido adequadamente e
por isso tinha se enrustido, se voltado para dentro.Galeno foi o grande representante dessa forma de atuar
sobre o corpo, chamada de “modelo de sexo único”. A
mulher era um homem invertido, por isso imperfeita e
inferior. Assim, como no Gênesis, a mulher origina-se
do homem, este sim fisicamente perfeito.
O cristianismo herda essa concepção de corpo e
a arrasta para a sua mais intensa disjunção com a vida.
Afinal o corpo é menor diante da...
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