Como é ser um morcego?

Páginas: 28 (6837 palavras) Publicado: 11 de fevereiro de 2013
Como é ser um morcego?
Thomas Nagel
Universidade de Nova Iorque
Tradução de Luís M. S. Augusto
A consciência é o que faz do problema da relação mente-corpo um problema verdadeiramente intratável. É por essa razão, talvez, que as discussões mais recentes acerca do problema da relação mente-corpo lhe dão tão pouca importância ou o deturpam de uma forma evidente. A recente vaga de furorreducionista produziu várias análises de fenómenos e de conceitos mentais forjadas com vista a explicar a possibilidade de uma qualquer variedade de materialismo, de identificação psicofísica ou de redução1. Mas os problemas por elas tratados são aqueles comuns a este e outros tipos de redução quando, na verdade, o que faz da mente-corpo um problema único, distinto do problema água — H2O ou do problemamáquina de Turing — máquina IBM, do problema relâmpago — descarga eléctrica, do problema gene — ADN ou do problema carvalho — hidrocarboneto, é ignorado.
Todos os reducionistas têm a sua analogia favorita na ciência moderna. É extremamente improvável que qualquer um destes exemplos bem-sucedidos de redução sem qualquer relação uns com os outros possa vir a deitar alguma luz no problema da relaçãoentre a mente e o cérebro. Mas, a verdade é que os filósofos compartilham com o resto da humanidade a tentação de explicar aquilo que é incompreensível em termos apropriados àquilo que é conhecido e bem compreendido, ainda que de natureza completamente diferente.
Este facto levou ao acolhimento de descrições implausíveis do mental, em grande medida porque elas permitiam tipos já conhecidos dereducionismo. Vou tentar explicar porque é que estes exemplos habituais não nos ajudam a compreender a relação entre a mente e o corpo — porque é que, de facto, não temos neste momento nenhuma noção do que poderá ser uma explicação da natureza física de um fenómeno mental. Sem a consciência, o problema da mente-corpo seria muito menos interessante; com a consciência, parece impossível de resolver.Ainda não compreendemos muito bem a característica mais importante e distintiva dos fenómenos mentais conscientes. A maior parte das teorias reducionistas nem sequer a tentam explicar. E uma análise cuidadosa mostrará que nenhum dos conceitos correntes de redução lhe pode ser aplicado. Talvez se possa forjar uma nova elaboração teórica precisamente para esse efeito, mas uma tal solução, a serpossível, sê-lo-á somente num longínquo futuro intelectual.
A experiência consciente é um fenómeno amplamente difundido. Existe em muitos níveis da vida animal, ainda que não possamos ter a certeza da sua existência nos organismos mais simples; para além disso, é extremamente difícil dizer em termos gerais o que é que nos pode fornecer provas da sua existência. (Alguns extremistas chegaram mesmo a negarque ela exista em quaisquer outros mamíferos para além do homem.) Sem dúvida que ela existe sob formas incontáveis completamente inimagináveis para nós, noutros planetas noutros sistemas solares pelo universo fora. Mas, independentemente das múltiplas formas possíveis, o facto de um organismo ter um mínimo que seja de experiência consciente significa, basicamente, que há algo que é como ser esseorganismo. Pode haver outras implicações relativas ao modo de experiência; pode até mesmo (embora eu duvide) haver implicações no que diz respeito ao comportamento do organismo mas, fundamentalmente, um organismo tem estados mentais conscientes se e só se houver algo que é como ser esse organismo — algo que é como para o organismo.
Podemos chamar a isto o carácter subjectivo da experiência. Istonão é incluído em nenhuma das análises redutoras do mental mais conhecidas, recentemente forjadas, já que todas elas são logicamente compatíveis com a sua ausência. Isto não é analisável nos termos de um qualquer sistema explicativo de estados funcionais ou intencionais, já que estes podiam ser aplicados a robôs ou autómatos que se comportassem como pessoas apesar de não sentirem nada2. Não é...
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