Carência e plenitude

Páginas: 8 (1782 palavras) Publicado: 25 de março de 2013
Carência e Plenitude
Editora Vozes, 2001

3. O sentido ou a fala perdida
(dirigido aos terapeutas)

“À pergunta: “o que é que não vai bem?”, nem sempre a resposta é dada por um sofrimento vago ou bem localizado no corpo, mas, às vezes,  por um suspiro ou por algumas palavras misturada às lágrimas:“ Isso não tem sentido!”

Então compreende-se que a neurose possa revelar um ser frustrado desentido, o que leva aguns a pensar que a exigência fundamental do homem não é o desabrochamento sexual (Freud) , nem a valorização de si (Adler), mas a plenitude de sentido (Frankl).

Como se sabe, um sofrimento é insuportável na medida em que não se pode conferir-lhe sentido. Tudo parece possível para quem é capaz de conferir sentido, até mesmo ao insustentável, ao impossível.
Àqueles queexigem sentido, responde-se frequentemente pela explicação; ora, esta não cumpre sua promessa, ela não é a resposta à pergunta.
Certos terapeutas limitam-se a oferecer um amontoado de explicações: tal causa, tal efeito – tal pai, tal filho; o mito está aí m justamente para oferecer respaldo à explicação: tal filho, tal assassino do pai, etc. O terapeuta já não leva a sonhar, já não estimula ainterpretação livre dos sintomas que nos esmagam: uma interpretação particular acaba sendo uma explicação universal para o funcionamento da libido.  A própria Bíblia e os textos sagrados, “estes grandes reservatórios de sentido” , são utilizados como catálogos de explicações, ou ainda pior, de justificativas e, portanto, de infecção  culpabilizadora: o que tinha sido inspirado com o objetivo de curar  éutilizado para destruir,  colocar de sobreaviso em relação ao pensamento e à interpretação, aqueles que tinham necessidade de palavras, imagens e grandes figuras a fim de se abrirem para um sentido que tornasse suportável sua vida feita de dores. A palavra viva virou letra morta, letras que matam, catecismo.
A verdade nunca é dada de uma vez por todas,  nem está arrumada nas estreitas colunasdos nossos mais belos livros, mas permanece na fala desconfiada e insegura do homem  sedento de luz.  “O que é que isso significa?” “explique-me meus sonhos, o que estará acontecendo comigo...?”
Ao ouvirmos “por que?” sentimos a grande tentação de responder  utilizando a fórmula: “porque”.  E´deste modo que, desde a infância , nos têm respondido;  se tal procedimento não é assim tão ruim e inútil,acabou revelando-se insuficiente.  Para os mais insignificantes “por que?” , existe evidentemente uma resposta;  por que haveríamos de recusá-los?
Às vezes temos de remontar nossas genealogias,  identificar o traumatismo, dar nome a um mal; e este é como que circunscrito. Desta forma, acreditamos ter vencido o inominável pelas palavras e,  com efeito, verifica-se umas tréguas, um alívio: “Ah!Agora já sei o que tenho!”. A coisa está melhorando,  está menos mal,  dá para segurar, mas ainda não está “bem”;  foi possível reencontrar o fio, a cena primitiva, a partir da qual “tudo se explica”, ponto de exclamação com o qual gostaríamos de concluir a cura e esse ponto poderá tornar-se final, fatal, porque o sofrimento está de volta,, fomos enganados, a explicação não explicava tudo, a “ciênciamédica” ou “analítica”  tinha-nos escondido o seu não saber. Não se trata de criticar a ciência pelo que ela sabe,  mas censurá-la por não dizer simplesmente o que não sabe. O fato de envolver sua fala com longos e belos silêncios, como em poesia, tornaria a ciência menos perigosa e decepcionante.  Se o terapeuta tiver a coragem de reconhecer sua ignorância (seu inconsciente), não daráexplicações, há de escutar com fervor os balbucios  de uma fala verdadeira que abre caminho  no meio de mil e uma falas aprendidas.  Sua escuta faz apelo a essa fala , ele não sabe o que é o Outro, mas compete ao outro dize-lo.  Ao falar-lhe o outro revela-se  e descobre também que está nu, que é desconhecido.
Essa fala é difícil porque a nudez pode transformar-se  em nulidade na escuta de quem supõe que...
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