capitulo 3 vidas secas

Páginas: 11 (2705 palavras) Publicado: 18 de janeiro de 2014
Capitulo III - Cadeia
FABIANO tinha ido a feira da cidade comprar mantimentos. Precisava de sal, farinha, feijão e rapaduras. Sinhá Vitoria pedira além disso uma garrafa de querosene e um corte de chita vermelha. Mas o querosene de seu Inácio estava
misturado com agua, e a chita da amostra era cara demais.
Fabiano percorreu as lojas, escolhendo o pano regateando um tostão em côvado, receosode ser enganado. Andava irresoluto, uma longa desconfiança dava-lhe gestos oblíquos. A tarde puxou o dinheiro, meio tentado, e logo se arrependeu, certo de que todos os caixeiros furtavam no preço e na medida: amarrou as notas na ponta do lenço, meteu-as na algibeira, dirigiu-se a bodega de seu Inácio, onde guardara os picuás.
Ai certificou-se novamente de que o querosene estava batizado e decidiubeber uma pinga, pois sentia calor. Seu Inácio trouxe a garrafa de aguardente. Fabiano virou o copo de um trago, cuspiu, limpou os beiços a manga, contraiu o rosto. Ia jurar que a cachaça tinha agua. Por que seria que seu Inácio botava agua em tudo? perguntou mentalmente. Animou-se e interrogou o bodegueiro:
- Por que e que Vossemecê bota agua em tudo?
Seu Inácio fingiu não ouvir. E Fabianofoi sentar-se na calcada, resolvido a conversar. O vocabulário dele era pequeno, mas em horas de comunicabilidade enriquecia-se com algumas expressões de seu Tomas da bolandeira. Pobre de seu Tomas. Um homem tão direito sumir-se como cambembe, andar por este mundo de trouxa nas costas. Seu Tomas era pessoa de consideração e votava. Quem diria?
Nesse ponto um soldado amarelo aproximou-se e bateufamiliarmente no ombro de Fabiano:
- Como é, camarada? Vamos jogar um trinta-e-um lá dentro?
Fabiano atentou na farda com respeito e gaguejou,
procurando as palavras de seu Tomas da bolandeira:
- Isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer Enfim, contanto, etc. E conforme.
Levantou-se e caminhou atrás do amarelo, que era autoridade e mandava. Fabiano sempre havia obedecido. Tinha muque e substancia,mas pensava pouco, desejava pouco e obedecia.
Atravessaram a bodega, a corredor, desembocaram numa sala onde vários tipos jogavam cartas em cima de uma esteira.
- Desafasta, ordenou o policia. Aqui tem gente.
Os jogadores apertaram-se, os dois homens sentaram-se, o soldado amarelo pegou o baralho. Mas com tanta infelicidade que em pouco tempo se enrascou. Fabiano encalacrou-se também. SinháVitoria ia danar-se, e com razão.
- Bem feito.
Ergueu-se furioso, saiu da sala, trombudo. –
Espera ai, paisano, gritou o amarelo.
Fabiano, as orelhas ardendo, não se virou. Foi pedir a seu
Inácio os trocos que ele havia guardado, vestiu o gibão, passou as correias dos alforjes no ombro, ganhou a rua.
Debaixo do jatobá do quadro taramelou com Sinhá Rita louceira, sem se atrever a voltar paracasa. Que desculpa iria apresentar a Sinhá Vitoria? Forjava uma explicação difícil. Perdera o embrulho da fazenda, pagara na botica uma garrafada para Sinhá Rita louceira. Atrapalhava-se tinha imaginação fraca e não sabia mentir. Nas invenções com que pretendia justificar-se a figura de Sinhá Rita aparecia sempre, e isto o desgostava. Arruinaria uma historia sem ela, diria que haviam furtado ocobre da chita. Pois não era? Os parceiros o tinham pelado no trinta-e-um. Mas não devia mencionar o jogo. Contaria simplesmente que o lenço das notas ficara no bolso do gibão e levara sumiço. Falaria assim:
-"Comprei os mantimentos. Botei o gibão e os alforjes na bodega de seu Inácio. Encontrei um soldado amarelo" Não, não encontrara ninguém. Atrapalhava-se de novo. Sentia desejo de referir-se aosoldado, um conhecido velho, amigo de infância. A mulher se incharia com a noticia. Talvez não se inchasse. Era atilada, notaria a pabulagem. Pois estava acabado. O dinheiro fugira do bolso do gibão, na venda de seu Inácio. Natural.
Repetia que era natural quando alguém lhe deu um empurrão, atirou-o contra o jatobá. A feira se desmanchava; escurecia; o homem da iluminação, trepando numa escada,...
Ler documento completo

Por favor, assinar para o acesso.

Estes textos também podem ser interessantes

  • análise capítulos vidas secas
  • Resumo por capitulo de vidas secas
  • Vidas Secas
  • vidas secas capitulo XI
  • Resumo de Vidas Secas
  • Capítulo Fuga
  • Resumo por capitulo da obra vida secas
  • Vidas Secas Capítulo 7

Seja um membro do Trabalhos Feitos

CADASTRE-SE AGORA!