as mãos dos pretos

Páginas: 10 (2364 palavras) Publicado: 22 de maio de 2014
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas
Literaturas Africanas de Língua Portuguesa IV
Professora Rejane Vecchia da Rocha e Silva
Mariana Vieira Gregorio – 7165417

Análise Literária do conto “As mãos dos pretos” de Luis Bernardo Honwana

As mãos dos pretos está na coletânea de contos Nós matamos oCão-Tinhoso de 1964, do escritor moçambicano Luis Bernardo Honwana. O conto parte da indagação do narrador – uma criança - de por que as mãos dos pretos são mais claras do que o resto do corpo. A criança vai atrás das suas referências a fim de sanar sua dúvida (o Senhor Professor, o Senhor Padre, o Senhor Antunes da Coca-Cola, a Dona Dores, os livros, sua mãe, entre outros) – referências que são asinstâncias superiores a qual pode recorrer. Nessa teia de diálogos, o momento histórico de Moçambique se delineia.
Em 1964 a guerra pela independência de Moçambique estoura. O sistema colonial já está nas entranhas burocráticas do país: na religião, na forma de ensino, no sistema de trabalho. Diferente do jovem narrador do livro de contos de João Dias, Godido e outros contos, o narrador de As mãos dospretos, geração a frente, já vive a plenitude e a decadência do sistema colonialista. Muitas vezes, João Dias, em Godido e outros contos, recorre ao passado pré-colonial como resistência ao processo colonial que se inicia - que criou uma ruptura à vida como se organizava até então neste lugar que nem Moçambique se chamava. Já Honwana, vivenciando outro momento, projeta no futuro a resistência quese anuncia no horizonte: o fim da colonização e a busca pela identidade do moçambicano.
É importante destacar a característica de contradiscurso que a ficção narrativa de Moçambique possui desde suas primeiras publicações – que se deram primeiramente dentro de uma imprensa subversiva ao processo colonial. O contradiscurso, segundo M.F. Afonso, é a técnica da reescrita de textos pela periferiade modo a desafiar e subverter o discurso dominante do centro, do colonizador. A combatividade das narrativas se dá, primordialmente, pela urgência da situação de segregação dos pretos e nativos, mas outro dado se faz latente: a literatura estudada é escrita em língua portuguesa, então imposta pelo colonizador. A língua daqueles que detém o poder – e o mantém, de certa forma, por ser decretada aoficial – é também a arma subversiva destes autores moçambicanos.
Honwana, negro e preso no mesmo ano de publicação de Nós matamos o Cão-Tinhoso, era reconhecido pelas elites culturais moçambicanas e até mesmo estrangeiras. O embate de poderes, culturas e línguas está posto em contradição: a partir da sintaxe e das possibilidades da língua dominante, Honwana e outros vão criar outras formas eestéticas que deem conta das diversas culturas que comporão a moçambicana. A busca por esse ser e viver moçambicano, tão presente em Honwana, está inteiramente na forma como ele abusa da língua portuguesa. Desenha-se nos contos de outrora o futuro que agora podemos observar: Moçambique é nação e a cultura moçambicana é o produto das tradições nativas e das imposições ocidentais. Produto este, como sesabe, lapidado por conflitos e sangue; nada que seja novidade para nós, habitantes de um país também colonizado por portugueses.
Dentro deste panorama, a escolha por uma criança que conduz o foco narrativo realça a mentalidade colonizatória que está ao seu redor, que coloca os pretos inferiores aos brancos em suas explicações e mitos. A pergunta que o inquieta é, mesmo que absurda, patente deuma sociedade desigual. Mesmo assim, o narrador não se contentará com as explicações que toma contato, a não ser da sua mãe. Mesmo antes que se explicite o conteúdo da fala da mãe, o narrador diz “a minha mãe é a única que deve ter razão sobre essa questão de as mãos de um preto serem mais claras que o resto do corpo.” O narrador, além de suscitar as questões que o aflige, é dotado de...
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