Artigo Petuco Sa De Mental Alcool E Outras Drogas 1

Páginas: 27 (6599 palavras) Publicado: 10 de abril de 2015
SAÚDE MENTAL, ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS
Contribuição à IV Conferência Nacional de Saúde Mental – Intersetorial
Dênis Roberto da Silva Petuco
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Rafael Gil Medeiros

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Falta amanhã aos "esfarrapados do mundo" como
falta amanhã aos subjugados pelas drogas.
Paulo Freire - Pedagogia da Indignação

Escrever uma contribuição aos debates preparatórios da IV Conferência
Nacional de Saúde Mental –Intersetorial, sobre o cuidado e as políticas dirigidas
às pessoas que usam álcool e outras drogas; como fazer isto, quando temos
tantas dúvidas? Nos trabalhos de Educação Popular; nos Programas de Redução
de Danos (PRD's); nos CAPS e CAPSad; nas Unidades Básicas de Saúde
(UBS's); nas equipes de Estratégia de Saúde da Família (ESF); na universidade
(graduações e pós, residências e especializações), tantoentre professores como
entre estudantes; em todos estes lugares, cada vez mais o que temos são
dúvidas.
Esta é a primeira contribuição que gostaríamos de trazer: a necessidade
imperiosa de se manter uma postura de dúvida diante da vida, do sofrimento e da
potência dos outros. Nada mais violento do que a certeza rápida que emerge da
simplificação grosseira, a rotulação que diminui a riqueza daspessoas, na vida ou
na clínica. Nada pior do que os chavões do tipo “fulaninho é um manipulador”, ou
“cicrano não quer nada com nada”. Quando perguntavam a Claude Olievenstein
por que ele gostava de cuidar de “toxicômanos”, o psiquiatra/antropólogo francês
referia que eles eram jovens, interessantes, instigantes.
[...]
Este é o nosso mundo:
O que é demais nunca é o bastante
A primeira vez é sempre aúltima chance
Ninguém vê onde chegamos?
Os assassinos estão livres, nós não estamos
[...]
Me assustei
Não sou perfeito
Eu não esqueço a riqueza que nós temos
E de pensar nisso tudo
Eu, homem feito, tive medo e não consegui dormir
[...]

Não existem pessoas pobres. Como Freire, apostamos na “vocação de ser
mais” de cada pessoa (ou numa versão espinozista, na “potência”). O antropólogo
Clifford Geertz(1989, p. 10) diz que “quanto mais eu tento seguir o que fazem os
marroquinos, mais lógicos e singulares eles me parecem”. Outro antropólogo, o
brasileiro Hermano Vianna (2007, p. 169) pergunta: “Você viu alguma sociedade
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Sempre que houver alguma referência pessoal de Dênis, o texto será precedido do sinal “§”.
Sempre que houver alguma referência pessoal de Rafael, o texto será precedido dosinal “+”.

simples por aí?”. Se o outro nos parece simples, se os seus comportamentos
repetem o que lemos nos manuais, e se ele não parece nada mais que um
manipulador, talvez fosse saudável desconfiar não dele, mas do nosso próprio
olhar.
Por outro lado, para além das saudáveis desconfianças, convém também
afirmar algumas respostas que temos construído no âmbito da Saúde Coletiva,
especialmentenos territórios afetivos da Reforma Sanitária, da Luta
Antimanicomial e da Redução de Danos. Também a Educação Popular de Paulo
Freire, e as diretrizes da Política Nacional de Humanização. Os princípios do SUS
a nos lembrarem todos têm acesso à saúde, que devemos nos responsabilizar
pelo ser humano como um todo, e que as diferenças das pessoas devem ser
consideradas de modo positivo. Lembrando quesaúde é um direito, e que todo
usuário deve ser contemplado em sua singularidade, em seu direito de
participação em todos os níveis da produção do cuidado: na elaboração de seu
próprio projeto terapêutico, na reflexão sobre o cotidiano dos serviços, na
elaboração e fiscalização das políticas de Estado. Consta ainda das nossas
suspeitas a lembrança de que saúde rima com autonomia, e de que épreciso
respeitar os desejos, os tempos e os limites de cada pessoa. A lembrança de que
podemos operar a cidade como ferramenta de cuidado, e de que isto só se faz
quando conhecemos a pessoa com quem estamos nos relacionando, quando
ouvimos e respeitamos, quando acolhemos seus desejos, quando nos
interessamos por aquilo que ela é. Quando nos tornamos curiosos a seu respeito.
A partir do momento em...
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