Arte, filosofia e educação

Páginas: 21 (5167 palavras) Publicado: 14 de março de 2011
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arte, filoSofia e educação

A obra de arte Perguntei a uma criança de 6 anos de idade: – Diga-me: o que é bonito no mundo? – O mundo! – Certo... Mas o que é bonito dentro do mundo? – Ah... a fazenda! – E o que há de bonito na fazenda? – Os animais... – E por que você acha que os animais são bonitos? – Eles são coloridos! A imaginação da criança vai do mundo, vasto mundo... aodetalhe concreto. E seleciona as cores como sinal irrefutável da beleza. Basta-lhe recordar o que os seus olhos já viram. Mesmo que distante do ambiente rural, “presa” dentro de apartamento, basta à criança ter apreciado os animais da fazenda na gravura de uma revista, num documentário de TV ou numa imagem da internet. A propósito, segundo o biógrafo Diógenes Laércio, indagaram certa vez aAristóteles: “por que preferimos conversar durante mais tempo com as pessoas belas?”. E o filósofo teria respondido: “somente um cego faria esse tipo de pergunta” (Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, v. 20). A beleza entra pelos olhos, sem pedir licença. A beleza chama a atenção, atrai olhares, causa admiração. Extasiados, podemos permanecer mudos, absortos, contemplando-a. A atitude filosófica, noentanto, vai além: reflete sobre a beleza, faz-nos
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COLEÇÃO “tEmas & EduCaÇÃO”

pensar detidamente sobre ela (descobrindo novas nuances de beleza, descobrindo que há beleza até mesmo em realidades não tão belas...), faz-nos distinguir suas qualidades, problematizá-la, levantar hipóteses a respeito de sua apreensão, faz-nos desejar produzir outras coisas belas em resposta àquele estímulo. Aadmiração pode e deve deflagrar o pensamento, provocar perguntas, sacudir inércias. Nesse sentido, somos todos cegos em busca de explicações sobre o poder e o mistério da beleza. Sobre o seu poder e sua eficácia educativas, se optarmos por refletir no contexto do aprendizado. De fato, o deleite estético pressupõe e provoca a inteligência, a memória, a imaginação. Não se trata de algo que afeteapenas nossos sentidos externos, mas todo o nosso corpo e toda a nossa interioridade. Consideramos algo belo porque nossa visão assim o capta e porque nossa visão interior o reconhece igualmente! A palavra no texto grego de Diógenes Laércio para indicar o cego de que fala Aristóteles é tuflou, remetendo figurativamente à pessoa que, mesmo tendo visão saudável, mostra-se insensível, torna-se vítima deuma espessa neblina (ou de uma tempestade, um tufão... há relações etimológicas entre o tufão e essa cegueira) a encobrir-lhe os olhos da mente, sem abertura de espírito para reconhecer e acolher a beleza. No entanto, perguntas de cego são boas (e belas!). Porque “quem não pergunta não quer saber”, dizia Pe. Antônio Vieira (1608-1697) no Sermão de São Pedro, e “quem não quer saber, quer errar”.Admitir que não sei e, ciente da minha ignorância, fazer perguntas pertinentes ou impertinentes a alguém que suponho ser sábio ajuda a curar ou, pelo menos, a diminuir minha cegueira. Quem pensa saber tudo acaba desprezando inúmeras oportunidades de aprender. Quem já sabe algo, bem sabe que ainda tem muito a saber. A postura filosófica nos incita a perguntar de novo e sempre, quantas vezes forpreciso, em que, afinal, consiste a beleza. Atitude que nos ajuda a descobrir novas belezas, a desenvolver, ampliar e aperfeiçoar nossa visão estética. O conhecimento da realidade terá sempre um componente estético, por mais discreto que seja. A nossa linguagem deixa escapar essa verdade. Alguém diz que aprendeu uma “bela equação matemática”. Outro alguém afirma que comeu uma “bela feijoada”.
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Um terceiro comemora ter feito “bela pescaria”. O médico fica feliz por ter realizado uma “bela cirurgia”. A torcida vibra com um “belo gol” do seu time. Talvez não tenhamos plena consciência do quanto o adjetivo “belo” traduz realmente nossa captação da beleza nos mais diferentes cenários... Até mesmo o uso irônico insinua algo a apreciar: “que belo papel você fez ontem,...
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