ARGUMENTO ONTOLÓGICO

Páginas: 33 (8033 palavras) Publicado: 19 de outubro de 2014
Capítulo 3 
O argumento ontológico 

Talvez seja melhor pensar no argumento ontológico não como um único argumento 
mas como uma família de argumentos, em que cada membro começa com um concei‐
to de Deus e, apelando apenas a princípios a priori, procura estabelecer que Deus exis‐
te efectivamente. Nesta família de argumentos, o mais importante historicamente é o apresentado por Anselmo no segundo capítulo do seu Proslogium (um discurso).1 Na 
verdade,  é  justo  afirmar  que  o  argumento  ontológico  começa  com  o  Capítulo  2  do 
Proslogium  de  S.  Anselmo.  Numa  obra  anterior,  Monologium  (um  solilóquio), Ansel‐
mo  procurara  estabelecer  a  existência  e  natureza  de  Deus  entretecendo  diversas  ver‐
sões  do  argumento  cosmológico.  No  prefácio ao  Proslogium  Anselmo  comenta  que 
após a publicação do Monologium começou a procurar um único argumento que por si 
só  estabelecesse  a  existência  e  natureza  de  Deus.  Depois  de  muito  esforço  árduo  e 
infrutífero,  Anselmo  diz‐nos  que  procurou  afastar  o  projecto  da  sua  mente,  para  se dedicar a tarefas mais compensadoras. A ideia, contudo, continuou a assombrá‐lo até 
que  um  dia  se  lhe  tornou  clara  a  prova  que  procurara  tão  arduamente.  É  esta  prova 
que Anselmo apresenta no segundo capítulo do Proslogium. 

Conceitos fundamentais 
Antes  de  apresentar  passo  a  passo  o  argumento  de  Anselmo,  será  útil  introduzir 
alguns  conceitos  que  nos  ajudarão  a  compreender  algumas  das  ideias  centrais  que figuram no argumento. Suponha‐se que desenhamos, na nossa imaginação, uma linha 
vertical e imaginamos que no lado esquerdo da nossa linha estão todas as coisas que 
existem  e  no  lado  direito  da  linha  estão  todas  as  coisas  que  não  existem.  Podíamos 
então  começar  a  fazer  uma  lista  de  algumas  coisas  que  estão  em  ambos  os  lados  da nossa linha imaginária. A lista poderia começar da seguinte maneira: 
 
COISAS QUE EXISTEM 
COISAS QUE NÃO EXISTEM 
 
 
O Empire State Building 
A Fonte da Juventude 
Cães 
Unicórnios 
O planeta Marte 
O Abominável Homem das Neves 
 
Cada uma das coisas (ou géneros de coisas) apresentadas até agora tem a seguinte 
característica: logicamente, podia estar no outro lado da linha. A Fonte da Juventude, 
 

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por  exemplo,  está  no lado  direito  da  linha  mas  logicamente  nada  há  de  absurdo  na 
ideia  de  que  a  Fonte  da  Juventude  podia  estar  no  lado  esquerdo.  De  igual  modo, 
embora  os  cães  existam,  podemos  seguramente  imaginar,  sem  cair  em  qualquer 
absurdo lógico, que os cães podiam não ter existido: podiam estar no lado direito da linha. Registemos então esta característica das coisas até agora apresentadas, introdu‐
zindo a ideia de coisa contingente: algo que podia logicamente estar no lado da linha 
oposto ao lado onde efectivamente está. O planeta Marte e o Abominável Homem das 
Neves são coisas contingentes apesar de o primeiro existir e o último não. 
Suponha‐se  que  acrescentamos  algo  à  nossa  lista,  escrevendo  no  lado  direito  a expressão «o objecto que é ao mesmo tempo completamente redondo e completamen‐
te quadrado». O quadrado redondo, contudo, ao contrário das outras coisas apresen‐
tadas no lado direito da linha, é algo que logicamente não podia estar no lado esquer‐
do. Vendo isto, introduzamos a ideia de coisa impossível como algo que está no lado 
direito da linha e logicamente não podia estar no lado esquerdo. Olhando mais uma vez para a nossa lista, surge a questão de haver ou não alguma 
coisa no lado esquerdo da nossa linha imaginária que, ao contrário das coisas apresen‐
tadas  até  agora  no  lado  esquerdo,  logicamente  não  poderia  estar  no  lado  direito.  Por 
enquanto,  não  temos  de  responder  a  esta  questão.  Mas  é  útil  ter  um  conceito  para ...
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