Antologia

Páginas: 6 (1357 palavras) Publicado: 27 de março de 2014
Augusto dos Anjos
Solitário
Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos contorta...
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí como quem tudo repele,
---- velho caixãoa carregar destroços ----

Lavando apenas na tumba a carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!
Carlos Drummond de Andrade
Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais nada: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais nada: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas orude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem a porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
Mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.




Pouco importa venha à velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
E ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, asdiscussões dentro dos edifícios
Provam apenas que a vida prossegue
E nem todos se libertaram ainda.
Alguns acham bárbaro o espetáculo,
Prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou o tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.







Cecília Meireles
Se eu fosse apenas...

Se eu fosse apenas uma rosa,
Com que prazerme desfolhava,
Já que a vida é tão dolorosa
E não te sei dizer mais nada!

Se eu fosse apenas água ou vento,
Com que prazer me desfaria,
Como em teu próprio pensamento
Vais desfazendo a minha vida!

Perdoa-te causar-te a mágoa
Desta humana, amarga demora!
----- de ser menos breve do que água,
mais durável que o vento e que a rosa...


Fernando Pessoa
Álvaro de campos
LisboaRevisitada

Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada. 

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer. 

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas 
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –
Das ciências, das artes, da civilização moderna! 

Que mal fiz eu aosdeuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na! 

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro à técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram? 


Não me macem, por amor de Deus! 

Queriam-me casado, fútil quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, àvontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havermos de ir juntos? 

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja a companhia! 

Ó céu azul – o mesmo de minha infância –
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejoancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio, quero estar sozinho!

1923.
Guilherme de Almeida
Esta Vida
Um sábio me dizia: esta existência,
Não vale a angústia de viver. A ciência,
Sefossemos eternos, num transporte
De desespero, inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
No infinito do tempo. E vibra e cresce
E se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos nesse mundo.

Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver
Dentro da própria morte o encanto de morrer.

Um monge me dizia: ó mocidade!
És relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e...
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