Alma Ancestral do Brasil

Páginas: 34 (8492 palavras) Publicado: 7 de setembro de 2014
 ALMA ANCESTRAL DO BRASIL

A ALMA ANCESTRAL DO BRASIL

Roberto Gambini

Tenho refletido sobre o Brasil apoiando-me em minhas duas vertentes, a de sociólogo e a de analista junguiano. Para entender uma pessoa preciso compreender o meio em que ela vive e só posso entendê-lo se compreender a pessoa. Essas duas dimensões cominham eternamente juntas e da mesma forma como me sinto semprefascinado para compreender os mecanismos do inconsciente, as idéias de Jung e a fenomenologia do espírito, sinto-me permanentemente atraído a pensar sobre este país. Minha maneira de refletir sobre o Brasil tem sido através da imagem da alma - e quando digo alma, esta palavra tão usada e abusada pelo Catolicismo, digo algo que todo mundo entende. Estou, há muito tempo, em busca da alma brasileira e paraisso tenho feito uma reflexão acerca de nossa origem, de nossa História e de nosso drama arquetípico. Num certo momento da trajetória senti-me compelido a retroceder no tempo para muito antes de nossa origem européia e foram então tomando forma a idéia e o interesse por algo que passei a chamar de "alma ancestral do Brasil". 
Nós, como povo, temos um grande problema, que é a ausência de um mitode origem. Temos vergonha de nosso passado, que encaramos como se fosse um buraco negro, uma bruma, uma imagem vagamente aterradora ou claramente desprezível. Começamos a contar nossa história de povo a partir de um ato fabuloso chamado Descobrimento - que sabemos ser um inverdade e o termo correto, Invasão - e construímos um arremedo de identidade a partir de 1500, o ano do encontro de duasparcelas da Humanidade, uma caucasiana e outra autóctone, indígena. Mas não levamos em conta o mito de origem. Tal fato me parece acarretar graves conseqüências no que diz respeito à estruturação de nossa consciência coletiva e à maneira como individual e coletivamente nos relacionamos com as camadas profundas do inconsciente. Como negamos nossa origem ancestral, nós a deturpamos, nós a transformamos emalgo diverso do que é. Enquanto povo, começamos já destruindo aquilo que tínhamos de mais precioso. Acolho essa idéia com bastante interesse, porque acho que ela nos ajuda a entender o subdesenvolvimento, que não nos "aconteceu" no século XX; nós já começamos subdesenvolvidos. Porque a alma ancestral brasileira é de uma riqueza, de uma importância, de uma profundidade tal que, se não a tivéssemosnegado, estaríamos realizando através de nossa história uma grande síntese de duas maneiras de ser humano, a européia e a ameríndia. Mas não foi feita uma síntese histórica de duas polaridades; o que ocorreu historicamente foi a negação de um pólo pela predominância arrasadora de outro.
Seria bom se começássemos a pensar em nós mesmo do seguinte modo: temos atrás de nós um tesouro inestimável,sistematicamente negado e ignorado através dos séculos. Como isso se deu historicamente a partir do século XVI é fácil pesquisar. Mais difícil é reconhecer que essa negação continua até hoje a se repetir no interior de nossa psique e é por essa razão que me sinto motivado a falar sobre esse tema. Geração após geração repete-se na cultura e em cada um a destruição de uma raiz preciosa e jamaisreconhecida. Jung nos ensinou claramente: a inconsciência coletiva se auto-perpetua. Nossos filhos continuam a carregar a mesmo coisa que nós. Será que a consciência coletiva brasileira vai continuar ignorando e desqualificando sua raiz mais profunda, base e sustentação de sua mais verdadeira individuação?

Quando digo raiz, estou pensando em coisas mais precisas. As evidências atuais da Arqueologia,que é um campo em rápida transformação em nosso meio, indicam que o território ameríndio vinha sendo ocupado por seres humanos não há dois, três ou quatro mil anos, como sempre se supôs, mas há dez, vinte, trinta... Essa é uma disputa teórica que envolve interesses acadêmicos pesados, porque se houver o reconhecimento de que o homem entrou, certamente pela Península de Yucatã, na América do Sul...
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