Alberto caeiro e a crise metafísica moderna

Páginas: 22 (5386 palavras) Publicado: 1 de julho de 2012
Caeiro e o mundo sensível


Estabelecer uma relação entre a poesia de Alberto Caeiro (o heterônimo de Fernando Pessoa cuja aversão à Metafísica é notória) e a Filosofia pode parecer, inicialmente, um despropósito. No entanto, veremos como esta postura de abandono de um mundo supra-sensível está de acordo com todo um movimento realizado pelo pensamento filosófico no final do século XIX queculmina com as teorias não-sistemáticas nietzschianas e com as subseqüentes teorias da Fenomenologia.

De fato, antes de associar o fazer poético de Caeiro ao pensamento moderno, a atitude cognitiva do poeta se remete, em grande parte, àqueles primeiros filósofos gregos que falavam acerca da natureza, os physiologoi, errônea e injustamente denominados de pré-socráticos(1). O próprio Caeiro reconhecea sua ligação com este saber primordial e, de certo modo, ingênuo, porém, pertinaz.


“Sou o Descobridor da Natureza.

Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.

Trago ao Universo um novo Universo

Porque trago ao Universo ele-próprio.”(2)


Estamos diante de uma crítica à forma como o Ocidente desenvolveu, durante mais de vinte séculos, seu método de investigar o mundo segundocritérios racionais. A atitude de Caeiro é a de retomada de um modo de olhar para as coisas sem o véu deturpador e doente do intelecto.

O poeta da natureza deve se entregar ao mundo sobre o qual ele deseja falar. Ele não pode retratá-la como um espectador, mas sim como um ente integrado naquele ambiente. Pois, ao se pôr de fora, imediatamente o poeta perde o vínculo essencial e tem de se armar deconceitos vazios que mascaram a realidade sensível. A busca de Caeiro não se assemelha às indagações socráticas(4) sobre conceitos universais — e.g. bondade, beleza, justiça —, na verdade, para o poeta, enquadrar as vivências segundo tais critérios é falacioso, porque, para ele, não é assim que as coisas se apresentam.


“O que nós vemos das coisas são as coisas.

Porque veríamos nós uma coisase houvesse outra?

Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos

Se ver e ouvir são ver e ouvir?”(4)


A grande questão que motivou os primeiros pensadores gregos era a de saber se havia, e caso houvesse, qual era a substância essencial do Cosmo. No entanto, para cumprir este projeto, eles partiram da observação de como o mundo se organizava. Isto os conduziu a uma série de conclusõesdistintas sobre a matéria original: fogo, água, terra, a soma dos quatro elementos, a quintessência, o átomo, o Ser. Apenas um se deparou com o problema da geração e da corrupção dos entes, Heráclito de Éfeso. Assim como Caeiro ao observar a natureza, Heráclito percebeu as constantes mudanças e a diversidade da natureza; ao invés, porém, de negar estas impressões sensíveis e buscar um fundamentoessencial capaz de explicar estas cambiações, o pensador decidiu atribuir a fluidez à própria constituição do Cosmo.

“Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo, segundo Heráclito, nem substância mortal tocar duas vezes na mesma condição; mas pela intensidade e rapidez da mudança dispersa e de novo reúne (ou melhor, nem mesmo de novo nem depois, mas ao mesmo tempo) compõe-se e desiste, aproxima-see afasta-se.”(5)

Este constante devir, no entanto, não satisfazia a ânsia de um conhecimento perene e ontológico acerca da realidade, por isto, a perturbadora teoria heraclitiana foi abandonada pelos pensadores seguintes, que preferiram incorporar a noção de Ser de Parmênides(6), aparentemente mais estável e essencial. Gradativamente, o Ocidente persistiu nesta inclinação de considerar aquiloque recebemos através da sensibilidade como dubitável, em detrimento do conhecimento racional, que pode nos conduzir à verdade em relação aos entes. Em suma, uma sucinta descrição do percurso metafísico ocidental.

Contudo, na modernidade, o abismo entre a sensibilidade e a razão se estendeu até tornar-se insustentável, a tal ponto de se supor que jamais poderíamos conhecer “as coisas em si”,...
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