acasos e criação artistica

Páginas: 51 (12650 palavras) Publicado: 30 de abril de 2014
CAPITULO II

PERCEPÇÃO: SIGNIFICADOS

Cada momento de percepção encerra múltiplos momentos de Interpretação e compreensão. Imaginemos a seguinte cena: o telefone toca; alguém diz-. ' 'estarei aí dentro de meia hora ", e simplesmente desliga. As interpretações po­dem ser várias. É possível que tenha sido uma ligação errada; já eu me aborreço por ter que interromper um trabalho urgente,ressentida também com o tom brusco de quem deu mensagem tão lacônica. Mas talvez não fosse uma ligação errada nem a mensagem fosse surpreendente, embora o momento e a maneira o fossem. Posso pensar: "ainda bem, dentro de meia hora se resolve o assun­to", ou então, desesperada: "em meia hora! não termino nada". Também posso receber este recado com alegria; paro de trabalhar e vou correndo me arrumar. Dequalquer modo, engano ou não, o evento do telefonema não surgiu num va­zio. Além da situação concreta, havia uma predisposição minha; havia lembran­ças e certas expectativas, como parte de minha realidade de vida. Elas serviram de referencial para avaliar a relevância do recado e os eventuais significados que pudesse conter.
Cabe entender a percepção como um processo altamente dinâmico e não comomero registro mecânico de algum estímulo. "Dinâmico", no amplo sen­tido da palavra, de "forças em atividade". Nós participamos ativamente da per­cepção em vez de apenas estarmos passivamente presentes.
De saída, a percepção se estrutura através de processos seletivos, a partir das condições físicas e psíquicas de cada pessoa, e ainda a partir de certas ne­cessidades e expectativas. Frente aosincontáveis estímulos que nos chegam con­tinuamente, esta seletividade representa uma primeira instância de filtragem de significados. Como que estabelecendo um esquema de prioridades em nossa atenção, perceberemos certas coisas, podendo achá-las importantes ou menos importantes, e outras ainda, muitas outras coisas, simplesmente haveremos de ignorar. Assim a seletividade permite-nos interpretarmelhor os estímulos e reagir a eles de modo mais coerente e dentro de nossos interesses. Além disto — e ainda a partir das mesmas prioridades intuitivas — a seletividade nos leva a estabele­cer certas conexões (entre aspectos semelhantes ou contrastantes dos fenóme­nos) que possam tornar-se significativos para nós, projetando em nossa mente uma espécie de modelos mentais, em forma de padrõeshipotéticos. Estes nos servirão de referencial durante o próprio ato de percepção.
Quero exemplificá-lo: digamos que eu esteja procurando um determina­do livro. Recordo-me vagamente que ele não é muito alto, que tem uma lomba­da larga, marrom, e o título em letras claras, provavelmente douradas. Ao pro­curar o livro numa estante empilhada de volumes, minha vista é capaz de, num relance, passar rapidamentepor dezenas de lombadas, sem se deter a examinar cada uma delas. Paro naquelas poucas, em cuja conformação se conjugam al­guns dos dados. São lombadas mais grossas ou mais escuras do que outras, ou algumas com letras brilhantes. Por fim, avistando a lombada (num tempo rela­tivamente curto para a quantidade de livros percorridos), sei imediatamente que é este o livro que procurava.
Pode-seafirmar que, no caso, eu já dispunha de um modelo mental da­quilo que estava procurando — eu já conhecia o livro — e que portanto estava me guiando por uma imagem preestabelecida ao ato de percepção; quando de­parei com o livro, identifiquei a imagem lembrada. Ainda que o modelo inter­no não estivesse inteiramente correto, a lombada de meu livro revelando-se ver­melha em vez de marrom, as letras brancase não douradas, isto não teria muita importância porque, em termos globais, a configuração da imagem continuava coerente, permitindo esses pequenos desvios.' Servia portanto de hipótese a ser confirmada no ato de percepção.
Mas há inúmeros momentos em nosso dia-a-dia, em que as coisas funcio­nam de maneira bastante semelhante, sem que já preexista o modelo mental in­teiramente formulado. Ele...
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