235502453 Mia Couto Venenos de Deus Remedios Do Diabo 1

Páginas: 140 (34762 palavras) Publicado: 16 de setembro de 2015
2
Bartolomeu Sozinho é um velho mecânico naval moçambicano,
aposentado do trabalho, mas não dos sonhos ardentes e dos
pesadelos ressentidos que elabora em seu escuro quarto de doente
terminal. Ele é atendido em domicílio por Sidónio Rosa, médico
português.
A narrativa entrelaça a vida de Bartolomeu, de sua rancorosa
mulher, Munda, da ausente e quase mitológica Deolinda, filha do
casal, dodedicado Doutor “Sidonho”, bem como de Suacelência, o
suarento e corrupto administrador de Vila Cacimba, um lugarejo
imerso em poeira e cacimbas (neblinas) enganadoras. São vidas
feitas de mentiras e ilusões que tornam difícil diferenciar o sonho da
realidade.
Aparentemente,Sidónio veio de Lisboa para curar a vila de uma
epidemia. Mas é o amor pela desaparecida Deolinda, por quem se
apaixonara em Lisboa,que impulsiona seus passos mais íntimos.
Quando Deolinda voltou para sua terra natal, Sidónio viu-se
teleguiado pelo sonho de reencontrá-la. Mas Vila Cacimba não é
o
lugar do médico, nem poderá ser jamais.
A imaginação é a memória que enlouqueceu.
Mário Quintana
3
Capítulo um
O médico Sidónio Rosa encolhe-se para vencer a porta, com
respeitos
de quem estivesse penetrando num ventre. Estávisitando a
família de
Bartolomeu Sozinho, o mecânico reformado de Vila Cacimba. À
porta, a
esposa, Dona Munda, não desperdiça palavra, nem despende sorriso.
É o
visitante quem arredonda o momento, inquirindo:
— Então, o nosso Bartolomeu está bom?
— Está bom para seguir deitado, de vela e missal…
A voz rouca parece distante, contrariada como se lhe custasse o
assunto. O médico acredita não ter entendido.Ele é português,
recémchegado a África. Refaz a questão:
— Perguntava eu, Dona Munda, sobre o seu marido…
— Está muito mal. O sal já está todo espalhado no sangue.
— Não é sal, são diabetes.
— Ele recusa. Diz que se ele é diabético, eu sou diabólica.
— Continuam brigando?
— Felizmente, sim. Já não temos outra coisa para fazer. Sabe o que penso,
Doutor? A zanga é a nossa jura de amor.
A dona dacasa pára no meio do corredor, ajeita um cacho de
cabelos
sob o lenço como se aquele tufo capilar fosse o último
vestígio da sua
sensualidade.
— Diga-me, Doutor, não será que Bartolomeu foi atacado por essa doença
que agora corre pela Vila?

— Não, esta é outra doença.
— Ainda há pouco passou pela rua um desses homens
enlouquecidos,
agitando os braços, parecia querer voar.
— O posto de saúde estácheio deles, quase todos soldados.
— Sabe como o povo os chama? São chamados de tresandarilhos.
— Sim, já sabia. É um belo nome: tresandarilhos…
— Acha que é uma maldição?
— Isso não existe, Dona Munda. As doenças possuem causas objectivas.
4
Munda bate à porta do quarto, a fortaleza onde o velho se
encerrou e
escurece desde há meses. A esposa aguarda pela rabugenta
resposta de
Bartolomeu. Em vão.Dona Munda não poupa os nós dos dedos e,
de novo,
golpeia a porta. Cauteloso, o Doutor Sidónio pede-lhe contenção.
— Se calhar ele está a dormir. Venho mais tarde…
— Esse fulano vai acordar.
Às vezes chama-lhe fulano, outras, reduz o nome do marido para Barto.
Agora, rosto espalmado na madeira, a mão de Munda sacode o
trinco. Por
fim, o homem se faz escutar:
— Porquê?
Desde que ali chegou, SidónioRosa vem estranhando muita coisa.
Por
exemplo, agora: a pergunta devia ser “quem é?” . Mas Dona Munda
já vai
anunciando: ela vinha com o Doutor. O homem resmunga: o médico
que
entrasse sozinho, que a esposa só lhe atrapalhava a pulsação,
raios a
partissem, com todo o respeito.
Dão tempo. Dona Munda vai traduzindo para o médico português os
pastosos sons que vão escoando através da porta. Escuta-seo
velho
Bartolomeu a erguer-se do cadeirão, lento como lava fria,
escutam-se os
seus gemidos enquanto se dobra para calçar peúgas. Agora, diz
Munda,
agora ainda será preciso esperar que ele repuxe as meias até
cobrir os
joelhos.
— O seu marido tem tanto cuidado com as peúgas…
— Não é cuidado. É vergonha.
— Vergonha?
— Diz que tem os pés cheios de escamas. As unhas já lhe crescem fora dos...
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