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Páginas: 17 (4015 palavras) Publicado: 30 de abril de 2015
ARTIGO

A DOR, O INDIVÍDUO E A CULTURA*
Cynthia A. Sarti**

RESUMO: Na dor, manifesta-se claramente a relação entre o indivíduo e a sociedade.
As formas de sentir e de expressar a dor são regidas por códigos culturais e a própria
dor, como fato humano, constitui-se a partir dos significados conferidos pela coletividade,
que sanciona as formas de manifestação dos sentimentos. Embora singular paraquem
a sente, a dor se insere num universo de referências simbólicas, configurando um fato
cultural.
PALAVRAS-CHAVE: dor, cultura, corpo, significado social.

* Estas reflexões originaram-se de uma apresentação sobre o tema “A dor como fenômeno sócio-cultural”, no II Encontro
de Enfermagem Neonatológica, realizado de 8 a 10 de setembro de 1998, na Universidade Federal de São Paulo/Escola
Paulistade Medicina (UNIFESP/EPM), na Mesa-Redonda Abordagem multidisciplinar da dor no recém-nascido.
** Antropóloga, Doutora em Antropologia Social pela USP, Professora do Centro de Estudos em Saúde Coletiva (CESCO) da
Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina (UNIFESP/EPM). CESCO, Rua dos Otonis, 592. CEP
04025-001 São Paulo – SP. Telefone: (0xx11) 576-4586 ou 572-0609.

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A dor,o indivíduo e a cultura

A dor, como o amor, remete a uma experiência radicalmente subjetiva. Aquele que
sente a dor, dela diz, eu é que sei. Frente à dor do outro, há comoção, sofrimento (ou,
mesmo, gozo), com maior ou menor distância e intensidade. Embora singular para quem a
sente, a dor, como qualquer experiência humana, traz a possibilidade de ser compartilhada
em seu significado, que é umarealidade coletiva (embora jamais possamos nos assegurar
de que o que atribuímos ao outro, corresponda exatamente ao que ele atribui a si mesmo).
Assim, dizemos que entendemos a dor do outro. Não é precisamente esta possibilidade
que fundamenta o sentimento da compaixão, a comoção diante do sofrimento alheio? Mas
como saber da dor do outro? E a nossa dor? Como vivenciá-la e expressá-la? Quem iráentendê-la e como? O que há de social num sentimento tão singular?
Quando se fala em dor, a tendência é associá-la a um fenômeno neurofisiológico.
Admite-se, cada vez mais, que existam “componentes” psíquicos e sociais, na forma como
se sente e se vivencia a dor. Esta concepção, no entanto, implica a dor como uma experiência
corporal prévia, à qual se agregam significados psíquicos e culturais.
Aocontrário desta proposição, considerar a dor como um fenômeno sócio-cultural
supõe considerar o corpo como uma realidade que não existe fora do social, nem lhe
antecede. O social não atua ou intervém sobre um corpo pré-existente, conferindo-lhe
significado. O social constitui o corpo como realidade, a partir do significado que a ele é
atribuído pela coletividade. O corpo é “feito”, “produzido” emcultura e em sociedade.
Nenhuma realidade humana prescinde de dimensão social, tampouco o corpo ou a
dor. A singularidade da dor como experiência subjetiva torna-a um campo privilegiado para
se pensar a relação entre o indivíduo e a sociedade. Toda experiência individual inscrevese num campo de significações coletivamente elaborado. As experiências vividas pelos
indivíduos, seu modo de ser, desentir ou de agir serão constitutivamente referidos à sociedade
à qual pertencem. Ainda que traduzido e apreendido subjetivamente, o significado de toda
experiência humana é sempre elaborado histórica e culturalmente, sendo transmitido pela
socialização, iniciada ao nascer e renovada ao longo da vida.
A este processo de socialização correspondem dois momentos indissociáveis: o
confronto do indivíduocom a sociedade, como realidade objetiva; e a interiorização desta
como realidade subjetiva. O mundo social existe apenas ao se constituir como sentido para
os indivíduos que nele vivem. E, dialeticamente, os indivíduos só constróem o significado
de suas experiências (inclusive da dor), mediante as referências coletivas. Não existe
realidade social sem significado subjetivo para os que nela...
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