O trote e o ritual

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O trote e o ritual

O trote universitário é um costume brasileiro, que teve origem nas

universidades européias durante a Idade Média. O trote é realizado no início do

período letivo com o pretexto de garantir a integração entre calouros e veteranos.

Tal evento consiste em um conjunto de atividades, que alternam entre os chamados

trotes leves, ou seja, atividades encaradas por ambasas partes – calouros e

veteranos – como brincadeiras, e os chamados trotes violentos, que variam entre

agressões e humilhações, e que podem, em casos extremos, causar a morte

dos envolvidos. O trote marca a passagem da vida escolar, que é característica

da infância, para a vida universitária acadêmica, que representa a entrada e

uma escolha que, a princípio, determinará a vidaadulta. As forças pulsionais,

responsáveis pelos desejos enfrentam o caráter moralizante da cultura, que

reprime pulsões que a sociedade julga prejudicial ao convívio em comunidade. Na

hipermodernidade, essa moral foi abalada e seus valores estão em crise. O limiar

entre o bem e o mal foi desfeito, sendo assim, o indivíduo está livre para agir como

quiser. Esse é o comportamento que seapresenta no trote.

O rito de passagem pode ser definido como um ato, que mesmo sendo

vulnerável a modificações, mantém certas regras que perpetuam continuamente a

sua identidade. A essência do rito é, portanto, a repetição de um comportamento

estereotipado. A perpetuação da tradição tem como principal função oferecer aos

novos membros do grupo – e reafirmar para os antigos – ummundo de significados

e papéis que ditam as identidades, individual e coletiva, e que deverão ser mantidas,

mesmo com a substituição dos membros antigos, que deixam o grupo – no caso

das universidades, os alunos que se formam – pelos membros novos – os calouros.

Essa imposição de papéis que mantém a estrutura estável é, segundo McDougall1,

uma das cinco condições para elevar a vidamental dentro de uma formação

de grupo, situação a qual, segundo Le Bon2, reduz a capacidade intelectual do

individuo, uma vez que este deixa-se influenciar pela mentalidade imposta pelo

grupo, acarretando assim uma diminuição do seu senso crítico, pois esse deixa a

MCDOUGALL, William. A mente grupal, 1920.

BOM, Gustave Le. Psicologia das massas, 1895.

verificação da realidade parasegundo plano em relação à força dos impulsos plenos

O trote universitário, até onde se sabe, teve início no século XI, quando os

novos alunos das primeiras universidades européias assistiam às aulas em salas

diferentes dos antigos alunos. Esses eram obrigados a entregar as suas roupas,

que eram queimadas, em troca das roupas antigas dos veteranos e seus cabelos

eram raspados. Tudoisso com o pretexto de que tais medidas eram uma forma de

tentar combater a propagação de doenças entre os estudantes, já que muitas pestes

assolaram a Europa durante a Idade Média. Os trotes ditos violentos – ancorados

em práticas sado-masoquistas – também têm início neste período. No Brasil, os

primeiros trotes universitários são aplicados nas universidades desde meados de

1800.Esse costume foi trazido de Portugal, onde muitos estudantes do curso de

direito de Pernambuco e São Paulo freqüentavam os primeiros anos acadêmicos.

A formação de grupo no trote

Após anos de colégio, ao ingressar na universidade o jovem é obrigado a

enfrentar uma experiência totalmente nova e desconhecida, deparando-se com

pessoas novas, oriundas de diferentes cidades e crenças, masque tem em comum

o desejo pela mesma área profissional e com as quais será obrigado a conviver

durante toda a duração do curso. Além das pessoas, o calouro se vê diante de um

conteúdo que lhe é totalmente novo. Nesse ambiente, o aluno se comporta como um

recém-nascido diante do mundo e tem que aprender através da imitação o seu lugar

no grupo e no espaço, e o modo como deve se...
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