O terror e a guerra global

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  • Publicado : 15 de novembro de 2012
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O “TERROR GLOBAL” E A LINGUAGEM DA “GUERRA AO TERROR”
A Doutrina Bush identifica a resistência armada ao terrorismo e empurra os grupos fundamentalistas nacionais para os braços do “terror global” de Osama Bin Laden.
No debate político contemporâneo, confunde-se muito facilmente o terrorismo com o fenômeno geral da resistência armada à opressão dos Estados. Esta última atividade tem sido umtraço destacado do mundo moderno – em especial em situações de domínio de potências ocidentais ou coloniais – e abrangeu, em tempos mais recentes, as atividades do Congresso Nacional Africano contra o regime do apartheid na África do Sul, assim como a OLP na Palestina, a guerrilha no Afeganistão (...). O direito geral à resistência e, quando existe uma coação extrema, a pegar em armas costuma serreconhecido no discurso político moderno e também na legislação: constituiu o fundamento do respaldo de Reagan à revolta contra os regimes comunistas no Terceiro Mundo na década de 80 e do anterior respaldo comunista às guerras de libertação nacional nas décadas de 50 e 60. Este direito é também uma valiosa parte da herança da reflexão política, no Ocidente e no Oriente, ao longo de muitos séculos: atradição política e legal cristã rendeu homenagem a este princípio, abraçado entre outros por John Locke e os “pais fundadores” dos Estados Unidos. (Fred Halliday, “Terrorismo y perspectivas históricas”, Vanguardia, Dossier n. 10: Terror Global, Barcelona, 2004).
O terrorismo não é a resistência armada contra a opressão, a ocupação ou a dominação colonial. Terrorismo é a ação política contra opoder estabelecido caracterizada pelo emprego de atos de violência dirigidos a civis, líderes políticos ou militares não-combatentes.
No 11 de setembro de 2001, os fanáticos da Al-Qaeda praticaram o terror, fazendo aviões comerciais, com passageiros, colidirem contra as torres gêmeas do World Trade Center, repletas de civis que trabalhavam para empresas privadas. No 11 de março de 2004, o terror daAl-Qaeda atingiu trens urbanos lotados de trabalhadores, em Madri. Esses são atos clássicos de terrorismo, como o são os atentados suicidas cometidos pelos homens- bomba que explodem restaurantes ou cafés em Jerusalém e ônibus ou supermercados em Tel-Aviv.
O terror não é “islâmico” e não é “fundamentalista”.
O IRA utilizou o terror, entre as décadas de 70 e 90, com finalidade nacionalista: aindependência da Irlanda do Norte e a reunificação irlandesa. O ETA também atua no quadro do nacionalismo: sua meta é a independência do País Basco. O terror é um traço marcante da política contemporânea. Na Rússia do século XIX, extremistas cometiam atentados contra figuras simbólicas do governo imperial. No mandato britânico da Palestina, antes do surgimento do Estado de Israel, célulasterroristas judaicas cometeram atentados contra indivíduos integrantes da administração britânica.
A Doutrina Bush, da “guerra ao terror”, deturpou a linguagem política. As ações armadas da resistência iraquiana dirigidas contra soldados das forças de ocupação ou contra policiais locais treinados por essas forças são, invariavelmente, classificadas por Washington como atentados terroristas. Mas isso não éterror, pois os alvos são tropas em uniforme ou administradores civis diretamente associados à ocupação.
A linguagem degenerada da Doutrina Bush oferece um instrumento de incalculável valor ideológico para todos os Estados que enfrentam movimentos de contestação da ordem interna. Desde o 11 de setembro de Nova York, esses movimentos passaram a ser regularmente tachados como “terroristas”, de modoa isolá-los politicamente e gerar legitimidade internacional para a repressão. A China passou a classificar como “terroristas” os rebeldes do Tibete e do Turquestão, que não praticam o terror ou sequer a resistência armada. Israel dedicou-se a identificar o jovem palestino que lança pedras contra as tropas de ocupação na Cisjordânia ou Gaza com os homens-bomba do terror suicida. Cuba processou...
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