O sufoco num conto de caio f.

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Anais do VI EPOG – Encontro de Pós-Graduandos da FFLCH/USP Outubro de 2011

O sufoco num conto de Caio F. Roberto Círio Nogueira 1

Durante a última ditadura brasileira, diversos escritores mantiveram uma tensa relação entre a literatura e a história. Embora motivados a fazer do tempo presente a matéria de sua escrita, encontraram-se fortemente

recalcados pela violenta repressão àlinguagem imposta pelos militares. Recorreram então à alegoria, para denunciar de modo mais ou menos cifrado o sentimento de sufoco que o autoritarismo vigente havia implantado. Um caso exemplar é “O ovo”, conto de Caio Fernando Abreu publicado em seu Inventário do irremediável, em 1970. Este livro foi re-editado 25 anos depois, com oito contos a menos e os restantes re-escritos. Seu título também sofreuuma sutil e reveladora transformação, “passando da fatalidade daquele irremediável (algo melancólico e sem saída) para ir-remediável (um trajeto que pode ser consertado?)” (ABREU, 2005, p. 17). Como já notou Valéria Pereira (2008, p. 12), esta mudança denota uma virada otimista – ainda que insegura, eu diria – na visão de mundo de Caio F. Sem dúvida, a segunda versão do título sugere uma distensãodifícil de ser vislumbrada na época de sua primeira edição. Entre esta e aquela há um intervalo de duas décadas e meia que separa os tempos sombrios do AI-5 dos primeiros anos de uma nova constitucionalidade democrática. Esse otimismo, contudo, não permeou a revisão de “O ovo”, que permanece uma contundente alegoria da opressão. O conto é uma narrativa de teor memorialista, cujo narradorressentido e de baixa auto-estima considera que: “Minha vida não daria um romance. Ela é muito pequena.” (ABREU, 2005, p. 39). Propõe então o conto mais adequado para dar forma a sua existência insignificante. Para Valéria Pereira
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(2008, p. 59), isso se deve ao fato de o

Doutorando em Literatura Brasileira na USP e bolsista do CNPq. A pesquisadora consultou a primeira edição do livro, à qualainda não tive acesso. A edição que consulto neste trabalho reproduz a revisada por Caio Fernando Abreu em 95. No livro de 1970, o excerto em questão encontrava-se escrito desta forma: “A minha vida é muito pequena para caber num romance. Quando pensei em escrever isto aqui logo descobri que só um conto me caberia.” (ABREU, 1970, p. 23, apud PEREIRA, 2008, p. 59). Embora o significado não tenhasido alterado,

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Anais do VI EPOG – Encontro de Pós-Graduandos da FFLCH/USP Outubro de 2011

narrador ter em vista apenas a brevidade do gênero, cujo tamanho curto corresponderia precisamente a sua pouca experiência de vida. Mas talvez esta escolha formal contenha implicações um pouco mais abrangentes. Na definição de Ian Watt (1990, p. 31): “o romance imita a vida seguindo os procedimentosadotados pelo realismo filosófico em sua tentativa de investigar e relatar a verdade”. Por realismo filosófico entenda-se o pensamento cartesiano, conforme o qual a realidade concreta pode ser plenamente captada pelos sentidos e compreendida pela razão humana. As expectativas do romance seriam, assim, semelhantes às de um tribunal do júri: conhecer todos os detalhes da história para elaborar umrelato completo e verdadeiro dela, sem lacunas e pleno de certezas. Também para Adorno (2003, p. 55): “O realismo era-lhe imanente; até mesmo os romances que, devido ao assunto, eram considerados „fantásticos‟, tratavam de apresentar seu conteúdo de maneira a provocar a sugestão do real.” O problema é que “O ovo” foi escrito numa época em que a realidade não podia ser dita. Por ter descoberto erelatado a verdade aos seus parentes, o narrador-protagonista desse conto recebeu do pai “uma bofetada na cara. A mãe começou a chorar e pediu pra eu nunca contar a ninguém que tinha visto a parede.” (ABREU, 2005, p. 42). Era a parede branca de um ovo que envolvia o mundo. Ele a descobriu ao subir numa montanha, mas – embora surpreso – a esqueceu logo ao voltar para casa. Tempos mais tarde, porém,...
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