O socialismo liberal de norberto bobbio

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O socialismo liberal de Norberto Bobbio

Marco Mondaini - 2000


1. Desde os primeiros passos da modernidade (entendida aqui como a fase da história mundial caracterizada pela predominância do modo de produção capitalista e por um sistema de valores centrado na idéia de racionalidade), dois projetos de hegemonia, duas propostas de direção ético-política sempre se confrontaram de uma formamarcada pela intransigência, pela exclusão mútua, a saber, o liberalismo e o socialismo [1].

O primeiro, enraizado na tradição da Civitas romana e no seu ideal de “representação”, realiza-se historicamente nos tempos modernos durante o revolucionário seiscentos inglês, tendo sua paternidade filosófica clara em John Locke. Então, as liberdades do indivíduo, entre as quais aquela fundamental deter propriedade, não podiam mais ter sua privacidade invadida pelo Leviatã estatal.

O segundo, originário da vida política da Pólis grega e da sua prática de “participação”, nasce como que colado ao primeiro, parecendo ser uma espécie de reação natural ao individualismo liberal. Só que seu processo de maturação se daria de uma forma mais lenta, sempre reprimido pelo seu irmão gêmeo bastardo.Foram necessários aproximadamente duzentos anos para que a luta por igualdade social, por uma sociedade fundada nos interesses comuns da coletividade - a luta dos radicais ingleses que objetivavam virar o mundo de ponta-cabeça em meio à Revolução Inglesa de 1640 e dos jacobinos franceses influenciados pelas concepções de democracia radical de Rousseau durante a Revolução Francesa de 1789 - secristalizasse teoricamente nas páginas escritas no século 19 por Karl Marx. Neste momento, o Estado continua a ser severamente criticado, mas já não mais em prol de uma individualidade possessiva, mas sim em defesa da autogestão organizada dos trabalhadores.

A partir deste instante histórico, as reflexões teóricas assim como as intervenções práticas no campo da política girariam em torno de rígidasdicotomias, que não admitiam qualquer espécie de interação intersubjetiva: indivíduo vs. coletivo; liberdade vs. igualdade; propriedade vs. comunidade, etc. Todas elas passíveis de serem sintetizadas numa antítese mais abrangente: liberalismo vs. socialismo.

Tal relação marcada pela rarefação de diálogo trouxe consigo uma consequência negativa básica: o que havia de mais democrático em ambas astradições era nivelado aos seus aspectos mais autoritários, porque não podiam ser admitidas concessões, por mínimas que elas fossem. Assim, por um lado, os socialistas sempre se voltaram contra as liberdades e garantias individuais (o viés civil da cidadania), por entenderem que estas, na verdade, apenas camuflavam os interesses concretos da dominação de classe burguesa e a respectiva preservação dapropriedade privada. Por outro lado, os liberais nunca admitiram a ampliação dos direitos sociais rumo a uma maior igualdade (a faceta social da cidadania), no temor de que as minorias fossem destruídas nos processos de construção da vontade geral e de coletivização das riquezas materiais.

Foi preciso um aprendizado trágico com a experiência histórica para que socialistas e liberais seconscientizassem de que ambos haviam se chocado com uma terceira tradição do pensamento político ocidental: a democrática. Foi necessário o acontecer existencial dos totalitarismos nazifascista e comunista, na primeira metade do século XX, para que socialistas e liberais percebessem o fato de que, ao implementarem uma relação esquizofrênica de exclusão mútua, acabaram por atropelar aquela vítimaconstante do nosso novecentos: a democracia (a nuança política da cidadania).

O filósofo político italiano Norberto Bobbio parece-nos ser a “consciência ideal” dessa necessidade surgida num período em que a palavra “crise” ronda nossas cabeças: crise da racionalidade, crise da modernidade, crise da democracia, crise das utopias, etc. Sua proposta de fusão dos aspectos positivos do liberalismo e do...
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